Arquivo do autor Adriana Salles Gomes

As empresas já têm instrumentos para inovar

7a1.jpgDa matéria da Folha de S. Paulo com o presidente da SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência), Marco Antonio Raupp, no último sábado (19/7), por ocasião da 60ª reunião da SBPC: “Para o matemático Marco Antonio Raupp, o atraso do Brasil em inovação tecnológica é legado da cultura empresarial brasileira que mostra aversão a investimentos de retorno a longo prazo e dialoga mal com a academia. Ele não isenta as universidades de culpa, mas diz que quem tem de agir agora são as empresas” (leia a entrevista na íntegra clicando aqui). Isso está em perfeita sintonia com a ótima entrevista que damos na HSM Management julho-agosto com o físico Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor científico da Fapesp, responsável pela criação da Inova, a agência de inovação que é líder de patentes no Brasil. Mas a entrevista do Brito Cruz foi além, descrevendo todos os instrumentos que os empresários agora têm a sua disposição para inovar (isso tudo é super recente) e explicando que só tendo pesquisadores internamente (e não apenas com parcerias com universidades ou atuação em parques tecnológicos) é que as empresas vão realmente conseguir inovar. Enfim, acho imperdível para todo mundo que pensa em inovação hoje. E como não pensar em inovação hoje é impensável, a entrevista do Brito Cruz é imperdível. Ponto. (E, no tsunami mundial de inovações, outra expressão muito feliz do Vicente Falconi, ou as empresas brasileiras começam a inovar pra valer, ou, pela análise geral, o Brasil vai dançar…)PS: Vale dar uma olhada no site oficial da 60ª reunião da SBPC. Empresários, gestores & cia., está mais que na hora de acompanharmos essas coisas e convivermos com matemáticos, físicos e outros cientistas.

Ser impiedoso, uma lição de Vicente Falconi

falconi.jpgHá umas expressões absolutamente geniais. Uma delas, para mim, é “cair a ficha”. Você tem lá aqueles problemas, sabe de velho quais são suas raízes, é capaz de recitá-las de trás para frente para o terapeuta, mas, mudar que é bom, neca. Aí, um belo dia, a ficha cai. No orelhão, a moeda entra no compartimento certo. Em nós, a questão sai da cabeça e vai para o corpo –ou vai do ego para o self, sei lá. (Nas empresas, integra a cultura?) E você muda.Outra expressão assim, na minha opinião, está na entrevista do Vicente Falconi na HSM Management de julho-agosto. Para começar, esse homem é impressionante: está por trás de quase todas as grandes revoluções de gestão do Brasil, no setor privado e público, e quase ninguém o conhece, discretíssimo. Bom, ele diz que os gestores têm de ser “impiedosos” e foi essa a expressão que me pegou. E que não sermos assim no Brasil é uma grande desvantagem competitiva. Reproduzo um trecho da entrevista:”As pessoas se esquecem de que uma empresa é um bem de um país –não interessa se o dono é estrangeiro ou nativo–, porque, ao pagar impostos, salários e benefícios, gera riqueza para esse país. Então, ela não pode ter condescendência [com funcionários de fraco desempenho] porque tem obrigação de construir algo de bom para o país. O funcionário não desempenhou uma vez, tem de ter uma nova oportunidade, geralmente dois anos. Se for necessário, dá-se treinamento. Mas, se a pessoa mostra não ter talento mesmo para aquela posição, deve ser afastada e, para o seu lugar, tem de ser promovida uma pessoa talentosa.” Caiu a ficha? Continue reading ‘Ser impiedoso, uma lição de Vicente Falconi’

Todo criminoso comete sempre o mesmo erro; toda empresa também –preço, no caso das americanas

peterdrucker-small.jpgOpa, não sou eu que digo isso; foi o Peter Drucker que disse, em sua última entrevista, dada com exclusividade ao José Salibi Neto, da HSM Management (veja aqui). Reproduzo, com a observação de que eu adoro essa entrevista do Drucker, vale por um livro, foi muito inspirada (e com uma franqueza de dar gosto):
“Sabe o que eu acho particularmente incrível…? É que, com toda a história registrada e estudada, os norte-americanos ainda não aprenderam a não cometer os erros dos quais os japoneses se aproveitam. Acho que o mundo corporativo funciona mais ou menos como o mundo do crime. Todo criminoso comete sempre o mesmo erro; é assim que a polícia consegue prendê-lo, não é? Pois toda empresa também comete sempre o mesmo erro….. 
O erro [das empresas americanas] é fixar preços no limite do que o mercado é capaz de suportar, em vez de criar um mercado; é buscar margens de lucros elevadas, em vez de vender mais para maximizar os lucros.
Os empresários norte-americanos não sabem que lucro é igual à margem de lucro multiplicada pelo giro de estoque, pelas vendas; eles acreditam que lucro é igual à margem de lucro. Isso é culpa dos economistas, aliás. A grande fraqueza dos Estados Unidos está no fato de termos economistas demais. Economistas acreditam em margens de lucro. Já os japoneses sabem que lucro é igual a margem de lucro vezes giro. Eles se preocupam com margem de lucro, mas sabem que o giro é igualmente importante….algumas empresas brasileiras já aprenderam a explorar isso, como a fabricante de aviões Embraer.”

Imaginação no poder

Um robô que é aspirador de pó como esse do MIT relatado pelo Jorge e pela Cecília é o máximo da tecnologia no poder. E uma lavadora de roupas que divulga suas lavagens como mergulhos no fundo do mar? É o máximo da imaginação no poder. Quando temos as duas coisas juntas… A lavadora é da Ariston, fabricante de eletrodomésticos presente em vários países, mas não no Brasil. Essa dica foi do consultor português Paulo Vieira de Castro, que prega o dharma marketing, alicerçado justamente na imaginação e na sensibilidade mostradas neste comercial.

Fobias modernas

Reproduzindo abaixo este post do Bruno Altieri, do UoD, que achei interessante tanto para a área de marketing (investigar o comportamento do consumidor etc.) como a de RH. Com um comentário: não tenho nenhuma dessas fobias mas, por isso, agora me deu fobia de não ser suficientemente moderna, ai…(Ah, não, tenho a perdetudofobia, ufa!)Você sofre de idemofobia? É o medo de sair na rua com a mesma roupa de outra pessoa. E obsoletofobia? É o medo do outro ter um celular melhor que o seu. Aperepifobia? Medo de abrir e-mails, claro. Perdetofobia? Medo de não ter salvado o trabalho no computador.Esses nomes fantasiosos e muitos outros estão no livro (que estou lendo e recomendando) chamado “Você tem medo de quê? - fobias modernas“ , traduzido do original de Tim Lihoreau. Com muito humor, ele disseca várias partes do mundo moderno e como a tecnologia e os novos relacionamentos causam novos problemas e fobias sociais. Ou seja, uma maneira criativa de falar de modernidade. 

Marketing sem disfarces, por favor

anuncio-disfarce-jornal-cv.jpgQuando abriu o primeiro Starbucks no Morumbi Shopping, em São Paulo, eu, novidadeira, fui logo lá tomar um café. Quando fui buscar o adoçante, um rapaz se aproximou, pegou um saquinho e ficou comentando comigo: “Como é bom esse adoçante, não? Não deixa gosto ruim no final. Melhor que açúcar. Não me importo de pagar mais por ele. Etc. Etc.” Fiquei desconfiadíssima. Tinha acabado de dar um artigo sobre marketing disfarçado e quase tive certeza que aquele cara, naquela ocasião, tinha sido “plantado” para dizer aquelas coisas. Não revelo a marca do adoçante por não ter certeza. E se foi um depoimento sincero? Mas só de imaginar que não era, impliquei com a empresa e sua “possível” intenção de me enganar.
Bom: semana passada, no blog irmão Update or Die, teve um post polêmico justamente sobre propaganda disfarçada, só que nos blogs. Era meio que a favor dela, no estilo “live and let live”. Dizia que os  jornalistas “tendem a policiar o conteúdo dos blogs (que chamam de Blogs de Aluguel)”, que “nossa imprensa tem esse resquício autoritario de patrulhar conteúdo”, que “nos cases premiados em Cannes 2008 era frequente a citação de blogs… como forma importante de divulgação das campanhas [publicitárias]” e que reações assim no Brasil nos distanciam “de uma maneira mais moderna de fazer comunicação”. Não participei da discussão por falta de tempo, mas queria ecoá-la aqui no blog da hsm, alertando (sem disfarçar) que sou jornalista, potencialmente patrulheira. (Mas quem me conhece sabe que não sou do tipo corporativista que endossa tudo que a classe faz.) 
Agora, implico muitíssimo com esse tal marketing “espontâneo” contratado pelas empresas, seja ao vivo, seja em blogs.  Ok, não dá para esperar de blogueiro “compromisso ético com a verdade” e “isenção”, como se escreveu no post (ainda que dê para esperar do ser humano que tenha valores pessoais como o de falar a verdade). Mas dá para esperar das empresas que joguem limpo. Mais que esperar, dá para exigir. Então, se a Coca-Cola presenteia o blogueiro com geladeira de isotônico, que peça a ele para contar do presente que recebeu. Meu problema, vejam bem, é com as empresas, não com os blogueiros. Tem muita empresa fazendo marketing moderno com abertura e transparência, não precisa apelar para a saída pela esquerda. 
PS: Jornalista já recebeu muito jabá, mas isso mudou porque aumentou a seriedade da imprensa. Devemos celebrar, não achar careta.

Mercedes sem gasolina

Do Walter Longo, via UoD A previsão é da própria empresa: até 2015 sua linha de automóveis será totalmente livre de petróleo. Carros elétricos, bio-diesel e até hidrogênio fazem parte dos planos da Mercedes que já tomou a decisão de migrar para fontes alternativas de energia de forma definitiva. A previsão pode ser otimista, mas nada como o custo atual do petróleo para gerar mudanças radicais e quebrar paradigmas da indústria. (via AutoblogGreen)

Barulhinho bom (pro português) - 2

portunido.jpgA crítica do Ruy Castro, por exemplo, é de que a reforma é cosmética  e vai custar caro. Outros acham que ela violenta as culturas locais, na linha das críticas à globalização (e o Brasil seria o grande “imperialista” do pedaço nesse caso, porque é, se não me engano, o que muda menos). Condenam ainda o fato de a unificação ser imposta como lei, de cima para baixo. De qualquer modo, queria destacar alguns pontos positivos dessa unificação:

  • Muita gente aqui no Brasil vai ouvir falar pela primeira vez em Cabo Verde, Angola, São Tomé… 
  • Isso vai chacoalhar um pouco o mundo dos gramáticos e revisores, que vivem uma guerra com os escritores, criticando quando estes se apropriam da língua e a reconstroem no dia-a-dia, e outra guerra com os linguistas, por estes enxergarem a língua como organismo vivo em vez de mumificado (peço perdão aos gramáticos e revisores que não pensam assim, mas eles são exceção).
  • É possível que aumente a escala  para editoras de livros de todos esses países, algo de que o mercado editorial desses países precisa muito.
  • A língua mais simples e una é bem mais fácil de ser aprendida por outros povos. Isso é essencial na globalização (outra vantagem competitiva, e das grandes, em relação a Rússia, Índia e China, os outros do BRIC).
  • Foi o Antônio Houaiss o grande defensor dessa reforma e esse era um cara admirável. Só por isso a unificação já merece respeito.
  • Havia duas opções, a meu ver: podia ser uma reforma  radical de uma vez – eliminando todos os acentos, por exemplo – ou um processo. Acho que vai ser processo, não deve parar por aí. E, se fosse radical, o ciclo natural de reação à mudança –aquele do choque, negação, raiva, negociação, tristeza e aceitação–  talvez fosse menos gerenciável.
  • Por fim, todo esse barulho em torno da língua lhe dá vida, faz com que os pessoas se concentrem nela um pouco. Que discutam e polemizem! É um barulhinho bom! 
  • Barulhinho bom (pro português) - 1

    paisesportuguesa.jpgA partir de janeiro de 2009 teremos, teoricamente, de mudar um pouco o jeito de escrever aqui no blog, na nossa revista ou nos relatórios das suas empresas. Vai entrar em vigor a unificação da língua portuguesa, em que o Brasil e mais 7 países (Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe, e Timor) vão passar a escrever igual e cada um se adaptará um pouco nesse processo. Lembrando algumas mudanças, que já estão sendo divulgadas por aí: 

    •  O trema desaparece de vez. Já vai tarde.
    •  Incorporamos k, w e  y no alfabeto. Antes tarde…
    • Tiramos o acento circunflexo do voo que eles veem, o acento agudo da ideia e da jiboia (e afins),  o acento diferencial de para (verbo) e para (preposição). Acho que quanto menos acentos, melhor. No inglês, eles usam you sem explicar se é você ou vocês,  e assim mesmo acabamos entendendo pelo contexto, não é?
    • Aceita-se a dupla grafia para algumas conjugações verbais em que a forma do passado e a do presente são idênticas. Como em “louvamos”. Agora, para escrever isso no passado, você pode acentuar: “louvámos”. Pode, mas não precisa. Eu não vou.
    • O hífen é que vai dar trabalho mesmo, mas eu acho a regra fácil. Quando se duplica a mesma vogal (no fim da primeira palavra e no início da segunda), hifeniza-se, enfatizando que se fala a vogal duas vezes: micro-ondas, em vez de microondas. E quando o som é de consoante dobrada na junção das palavras (como contra-regra, com som de RR), escreve-se como se fala: contrarregra –bem mais instintivo!

    Acontece que só isso, que muda 0,45% das palavras escritas no Brasil, está gerando um barulho danado, e de gente graúda, do prêmio Nobel José Saramago a Ruy Castro. Acompanhem no próximo post

    Mas é preciso mecanizar a cultura de cana

    1211.jpgNem tudo são rosas, contudo. Continuando o post abaixo, Roberto Rodrigues (foto) alertou para a necessidade de mecanizar a cultura de cana, um debate que eu ainda não vi muito por aí. Vocês viram? Ele diz:

    • Em São Paulo, há um movimento forte para terminar de vez com o corte de cana manual, que é considerado um trabalho desumano, pelas péssimas condições que oferece aos cortadores de cana, os bóias-frias. Mas há outra corrente, liderada pelos próprios trabalhadores, que não quer a mecanização em função do desemprego que seria causado. “Os dois lados têm sua razão e acho que a eliminação tem de ir acontecendo na medida do possível, com modelos de substituição de mão-de-obra.” Rodrigues contou está trabalhando com o governo estadual para criar um financiamento para a reciclagem dos trabalhadores e sua capacitação para plantio de produtos de alto valor agregado, como frutas, flores, seringueiras e orgânicos. Precisa fazer isso no País todo.
    • As queimadas típicas da colheita manual da cultura de cana emitem mesmo gases de efeito estufa (faz-se queimada porque a folha da cana crua tem sílica, que corta os trabalhadores, e para afastar cobras). Isso torna a mecanização ainda mais desejável. Contudo, a queimada não agride tanto o solo quanto diz a lenda; estudos descobriram que a queima é tão rápida que não chega a mudar a temperatura a ponto de comprometer os microorganismos do solo. 

    Mais um aliado para o etanol

    feb07_ethanol-s.jpgA honorável revista inglesa The Economist traz nesta edição semanal (que já está no site e chegará às bancas hoje também)  um artigo em que advoga o fim da tarifa protecionista “hipócrita” imposta pelos EUA à importação do etanol brasileiro feito de cana-de-açúcar (para uso como combustível). Ao afirmar que as críticas ao etanol são injustas, ela ressalta para quem desconhece geografia que as plantações de cana ficam bem longe da Amazônia. Seríissima, a Economist é uma aliada e tanto nessa batalha brasileira pelo etanol no front internacional. E caso alguém ainda não tenha percebido, o etanol é um forte aliado da marca Brasil no front internacional, com potencial de impulsionar a internacionalização de muitos negócios brasileiros. Embora sejam longas, vale reproduzir aqui algumas das observações - acachapantes – do Roberto Rodrigues (ex-ministro de Agricultura do governo Lula, especialista de agronegócio da FGV) feitas à jornalista Lizandra Magon de Almeida, colaboradora de HSM Management, até porque “spreading the word” é fundamental nesse caso:

    • O potencial do Brasil nessa área é enorme: já usamos 44% de combustíveis renováveis, enquanto o mundo usa só 14%, segundo Rodrigues. “O Brasil poderia produzir 15% do combustível consumido no mundo em 15 anos, usando a terra e a tecnologia atual.” Ou seja, sem contar a tecnologia que está por vir pode até fazer dobrar esse índice. E sem contar que podemos nos dar ao luxo de aumentar em 7,5% a área plantada de cana no Brasil sem impactos ambientais.
    • Os mercados para o etanol precisam ser ativamente construídos, o que depende de leis. No Brasil, o Pró-Álcool só foi para frente quando se tornou obrigatória a mistura de 20% de álcool na gasolina. Os outros países vão ter de fazer leis similares.

    Continue reading ‘Mais um aliado para o etanol’

    Será que o Brasil está ficando mais sexy?

    giselle.jpgAchei significativas duas notícias que saíram na mídia recentemente:

    •  Durante o Festival de Publicidade de Cannes, Bob Greenberg, CEO da R/GA, agência interativa do Grupo Interpublic, disse ao Meio & Mensagem  que sua agência quer estar presente em todos os BRICs (os promissores Brasil, Rússia, Índia e China) em dois anos. “São Paulo, Mumbai, Moscou e Xangai são os próximos destinos da R/GA” foram as aspas. (Apesar dos outros grupos de emergentes que emergem, como o VISTA e o N-11, os BRICs parecem reinar absolutos nos holofotes.)
    • A Giselle Bündchen andou declarando que é sexy defender o meio ambiente, em especial a Amazônia. (Até deu como exemplo o Sting,  embora eu ache que o Sting seria sexy mesmo que defendesse a turma do Blairo Maggi. Tudo bem, são detalhes.) 

    Cruzando as notícias, talvez seja um indicativo de que o Brasil está ficando mesmo atraente, sexy no melhor sentido. Será? (Aha! Por mim, poria a foto do Sting, mas sabia que a da Giselle atrairia mais leitores…)

    Novo luxo, design e os fatos da vida

    A edição julho-agosto da HSM Management (chega às bancas em meados de julho) vai trazer uma reportagem polêmica sobre o livro “Deluxe: Como o Luxo Perdeu o Brilho”, da Dana Thomas. O livro diz basicamente que, ao se massificar, o luxo deixou de ser luxo, embora continue cobrando preço de luxo; teria virado “apenas” design. O Contardo Calligaris comentou esse livro na Folha faz pouco tempo, citando, entre outras coisas, o Gillo Dorfles, professor de estética, que explica que o design é uma das bases de nossa vida relacional e que o cuidado com a dimensão estética do mundo melhora nossa relação com as coisas, com os outros e com nós mesmos. Dorfles reconhece faz tempo como fato irreversível o declínio da produção artesanal e sua substituição pela fabricação em série, que é o que “pega” para a Dana Thomas. Assim, o novo luxo de fábrica eliminou o caráter exclusivo e excludente do velho luxo artesanal, democratizou-se. Os preços caíram relativamente, por conta disso. Claro que a Dana Thomas está certa em denunciar se há preços abusivos ou se os caras exploram a mão-de-obra indonésia para fazer um objeto de (novo) luxo, mas reclamar da falta de exclusividade me parece ser querer parar o tempo, a evolução da sociedade, os fatos da vida. O novo luxo chegou até à hotelaria, como mostra um post de hoje do Marcos Teixeira no Trippin’ –inclusive hotéis de Sampa, como o Normandie, são prova disso. Na revista, damos o outro lado, na análise do consultor Carlos Ferreirinha sobre o assunto. E, para provar a importância do design, também damos um artigo ótimo sobre o Yves Bèhar, o designer da hora, do “One Laptop Per Child”. (foto).

    Alguém me explica o telemarketing?

    telemarketing.gifPara mim, marketing e vendas funcionam mais ou menos como naquela música do Chico Buarque, Terezinha de Jesus, em que o primeiro (pretendente) vem do florista e lhe dá um broche de ametista, o segundo vasculha sua gaveta e cheira sua comida, mas é o terceiro, chegando sorrateiro, que ganha a mulher: “Antes que eu dissesse não, se instalou feito um posseiro dentro do meu coração”. O sorrateiro chega no boca a boca, na boa publicidade etc.Por isso, não consigo entender como tem sucesso o telemarketing ativo, que invariavelmente usa a estratégia de um dos dois primeiros pretendentes da música (a invasão gentil ou a invasão hostil). (A invasão hostil é a fase 2 da estratégia do telemarketing, na verdade: quando eles ficam insistindo sem deixar a gente desligar.)Todos os meus amigos e parentes têm a mesma ojeriza que eu, ou até maior –não é incomum, por exemplo, as pessoas compartilharem táticas para se livrar dos operadores. A de um conhecido meu é bem inusitada (e eficaz). Ele diz ao operador: “Agora não posso falar; te ligo de volta. Até que horas você fica aí? Ah, só posso depois disso. Me dê o telefone da sua casa que eu te ligo, várias vezes se for preciso, fique tranquilo”. (Todos os operadores desligam rapidinho.)Alguém de marketing/vendas pode me explicar por que insistem tanto nessa ferramenta? Não entendo! Eis algumas perguntas:

    1. Essa estratégia MST de invasão dá resultado mesmo?
    2. O resultado compensa até a rejeição gerada no processo, inclusive rejeição à marca?
    3. Por que as empresas, no momento em que o alvo diz que não compra nada por telemarketing por princípio (nem uma BMW a US$ 1), não o deletam do mailing automaticamente?
    4. Por que eu recebo três ou quatro ligações na mesma semana da mesma empresa oferecendo o mesmo produto?
    5. Não ia ter uma lei proibindo as empresas de fazer isso? 
    6. De quem foi a idéia brilhante de usar telemarketing ativo para “relacionamento”, que nesse caso significa tentar empurrar mais produtos para alguém que já é cliente?

    Importante: Minha crítica não se aplica ao marketing direto por correio (convencional ou eletrônico), em que temos a opção de simplesmente jogar fora a mensagem ou de lê-la na hora que tivermos disposição. As centrais de atendimento receptivas também são muito úteis e não têm nada a ver com minhas reclamações.PS1: Escrevo depois de receber uma ligação de telemarketing dessas… PS2: Fiz um google Eu odeio telemarketing, deu várias páginas. Vejam.  

    Goswami, Deus e nossos paradigmas

    Escrevi sobre física quântica aqui há algum tempo, confesso que o assunto me fascina. Pois um dos ícones da física quântica, Amit Goswami, esteve no Brasil semana passada para a Conferência Internacional Ethos 2008 (já tinha sido entrevistado no programa Roda Viva em 2004). No livro “O Universo Autoconsciente”, Goswami diz que, se os estudos atuais nessa área se desenvolverem, logo no início do terceiro milênio Deus será objeto de ciência e não mais de religião (mas não é um Deus parecido com um imperador). Imaginem como isso pode mudar totalmente os paradigmas! Queria trazer aqui algumas idéias desse físico :

    •  Nem o mundo está determinado (como sugerem as religiões), uma vez que a física quântica descobriu o princípio da incerteza e a onda de possibilidades, nem existe o livre-arbítrio de que tanto se fala por aí, pois experimentos já cansaram de provar que estamos condicionados demais para isso.
    • Deus é uma espécie de consciência cósmica.  Há movimentos descontínuos no mundo para os quais não existe explicação matemática ou lógica, mas, mesmo assim, tudo é totalmente objetivo, não arbitrário. Daí a idéia da existência de Deus e de que Ele age de forma objetiva, bem definida.  
    • Estamos começando a entender a natureza (e a importância) da criatividade. Einstein disse “Não descobri a Teoria da Relatividade apenas com o pensamento racional”, porque ele já sabia que a criatividade era importante. Agora, quase cem anos de pesquisas sobre criatividade estão mostrando que os cientistas também dependem da intuição. 
    •  Galileu definiu os dois princípios da ciência: ela deve ser verificável e deve ser útil. O último princípio é o mais importante, mas alguns parecem achar que é o menos importante. Assim, é importantíssimo o efeito placebo, por exemplo, e toda a medicina mental, que faz a mente influir no corpo. Deepak Chopra começou a fazer uma revolução nesse sentido, com seu livro “Cura Quântica”, há dez anos. 
    • Nossa sociedade está em grande perigo nestes tempos, porque os indivíduos se tornaram objetos. As pessoas perseguem o sentido no mundo material e não há lugar para o sentido na matéria. E a transformação de indivíduos (sem sentido) em objetos significa sua permanência apenas como possibilidades. 

    Para um pouco mais dessa loucura, clique na transcrição integral do Roda Viva (de 2004).





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