Eu queria falar do lado obscuro do “updating”, que, na verdade, nem é um lado: é o “updating” mal compreendido. Trata-se de inovar à toa, só pela moda de fazer algo novo. A vítima da moda no caso é a fabricante de biscoitos Piraquê, que está substituindo as embalagens clássicas (e revolucionárias) feitas pela artista plástica Lygia Pape por algo “muderninho”.
Além de embalagens marcantes e fofas, como essa do queijinho acima (minha preferida), Lygia Pape pôs conceito no negócio. Como explica Daniela Name no seu blog, Lygia aplicou nas embalagens “todos os princípios de Gestalt, de geometria sensível e de ‘obra aberta’ que nortearam as obras de arte do período (anos 1960, 1970)… Os losangos sobrepostos nas embalagens do biscoito Água e Sal, abaixo… não parecem um “Metaesquema” de Hélio Oiticica?”
Nem foi só isso. Ainda nas palavras de Daniela, Lygia “inventou um novo conceito para a embalagem, depois copiado por outras indústrias do Brasil e do exterior”. Antes dela, “os biscoitos eram guardados em caixas ou latas padronizadas, fosse qual fosse o seu formato. A artista desenvolveu um método próprio de cortar e colar o papel de embalar, de modo que ele passou a envolver os biscoitos sem gerar sobras dos lados, acima ou abaixo. Os biscoitos passaram a ser empilhados verticalmente e o papel plástico apenas se sobrepunha a esta pilha, criando a forma que as embalagens de Maria, Maisena e Cream Crackers têm até hoje, ou seja, a de sólidos espaciais (cilindro, ovalóide e paralelepípedo)”.
Jogar esse patrimônio da marca fora é, no mínimo, “desinteligente”. Há tradições que, de tão boas, precisam ser mantidas. O certo seria rejuvenescê-las com comunicação, já que, aposto, quase nenhum consumidor conhece a história. Vocês mesmo, leitores deste blog, por exemplo: vocês sabiam que o pioneirismo das embalagens de biscoitos cabia a uma marca (e a uma designer) brasileira?
Leiam mais sobre a história no blog da Daniela Name, Pitadinhas.
