Mais um escândalo atinge a esfera pública brasileira. Velhos personagens, que nunca saem de cena, voltam ao centro do palco como protagonistas de maracutaias dignas de páginas policiais. Os holofotes, desta vez, estão direcionados ao presidente do Senado, José Sarney, que a cada dia que passa se afunda mais e mais em um atoleiro de revelações recheadas de episódios sórdidos sobre sua conduta e de seus auxiliares diretos.
Estamos diante, novamente, de uma total falta de ética e de esquemas de fraude de arrepiar qualquer cidadão. Aproveito, então, para fazer um paralelo com o mundo corporativo. Acho que seria de bom tom - ou quem sabe de fundamental importância - o Senado brasileiro se espelhar nas boas práticas de governança tão pregadas no universo dos negócios.
O que o mundo corporativo tem a ensinar ao nosso Senado? Tudo. Não é possível ficarmos passíveis a inúmeras irregularidades de revoltar o País. Precisamos de transparência na prestação de contas (como uma espécie de “accountability”); de uma gestão pública eficiente, capaz de permitir um total controle de gastos, que vete abusos, atos secretos e acabe de vez com funcionários fantasmas; de um contundente planejamento estratégico; da instalação de comitê de auditoria para fiscalizar as contas da Casa e os atos de seus administradores.
Muitos de vocês podem querer me questionar neste momento em relação aos maus exemplos vistos no universo corporativo que estampam as páginas das revistas e jornais de negócios vez por outra. Sobretudo alguns executivos, inclusive, que assistimos a ressurgir no comando de empresas após serem alvo de escândalos ou má conduta.
Mas asseguro que as regras cada vez mais rígidas desse mercado conseguem coibir sim a proliferação dos “vilões corporativos”. Vejam o caso do financista Bernard Madoff, condenado pela justiça dos Estados Unidos a 150 anos de prisão depois de cometer uma das maiores fraudes da história de Wall Street. A descoberta pode ter chegado tarde, no entanto, a punição veio. E veio com um final nada feliz para um “bandido de elite” que fez vítimas pelo mundo todo.
É um pouco desse senso de justiça que nós brasileiros queremos em relação à atuação de nossos líderes, que não podem continuar mais agindo impunemente. Pior ainda é enfrentar o duro golpe de nosso líder “mor”, que tanto pregava a ética antes de conquistar o poder e agora se torna advogado ferrenho de personagens que só mancham a imagem de Brasília.
O Senado deveria olhar com mais atenção aos exemplos do mundo corporativo, enquanto nós cidadãos temos o direito - e o dever - de cobrar com mais afinco daqueles que colocamos lá no poder - do mesmo jeito que os “boards” exercem (ou deveriam) seu papel. Ou será que queremos permanecer reféns de um comando que em muito se assemelha às conhecidas milícias cariocas que, desafortunadamente, tomaram de assalto os morros a partir da década de 1990?
Não podemos mais rogar aos céus e esperar pelos milagres de São Judas Tadeu - padroeiro das causas impossíveis na religião católica. Milagres até podem existir, mas nunca vi nenhum milagre chegar à cova dos leões e curar o mal que fere a ética e moral de nossos governantes.
É inquestionável que há uma crise de ética e de valores morais instalada não só nas organizações, mas principalmente nas instituições públicas. Só precisamos, urgentemente, que bons exemplos do mundo corporativo sejam aplicados na máquina do Estado. O poder não pode corromper, da mesma forma que os meios não devem justificar os fins. E quem não tiver de acordo, que levante as mãos.

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