Faleceu ontem em São Paulo o empresário e bibliófilo José Mindlin, tinha 95 anos e nos últimos 15 dedicou a vida a uma verdadeira paixão, os livros.
Já havia doados os 40 mil exemplares de 17 mil títulos da sua coleção Brasiliana para a USP que se apressa em construir o prédio que vai abrigar a Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin. Essa era uma parte importante de seu acervo, mas longe de ser o todo.
Este blog discute muita tecnologia, o que não tem nada de errado, a não ser o risco da obsolescência. Ele leu e releu alguns clássicos enquanto se discutia algumas inovações. Mindlin passou parte da vida a frente da Metal Leve, uma empresa modelo que se internacionalizou há décadas, mantinha centros de tecnologia no exterior e disputava mercado num mundo muito menos globalizado do que o de hoje. Li hoje que deixou um epitáfio que afirmava algo assim: José Mindlin passou uma grande parte da vida fabricando pistões, mesmo sem saber para que servem os pistões…
Em certo momento percebeu que o jogo era muito maior e que sua empresa não teria escala para continuar, vendeu-a, enquanto teve que conviver com a burocracia estatal, aproveitava a espera para ler. Leu algumas vezes o clássico de Proust Em busca do tempo perdido… Foi secretário da Cultura e peitou o regime na questão da morte do jornalista Wladimir Herzog, teve posições coerentes e foi reconhecido como um exemplo de profundidade e simplicidade num mundo cada vez mais leviano.
Contribuiu efetivamente para o entendimento do Brasil e para o desenvolvimento da cultura do país. Não fez muitos exemplos, outros devem doar bibliotecas e centros de estudo, poucos devem ter mergulhado em livros ou nas questões da cultura como ele. Ele conseguiu o nome num prédio da USP, na verdade, ele mereceu, e não brigava com a tecnologia. Há pouco tempo deu entrevista explicando o processo de digitalização de sua biblioteca.
Não me consta que tenha deixado aviões e outros objetos luxuosos. Não tinha nada além de arte e livros na sala, nem um super carro com pistão fabricado pela empresa dele… Gastava o que economizava em estruturas de segurança em livros antigos. Cada louco com sua mania, pena que no manicômio empresarial de hoje, poucos frequentem essa ala…
