Desde o caso da Enron não assistia a cenas tão impressionantes quanto as da quebra do Lehman Brothers, quarto maior banco de investimentos dos Estados Unidos. Só não imaginava me ver bem no centro de todo o furacão. E que furacão! Coincidência ou não, neste momento estou em Nova York, diante de uma crise que entrará para a história do mercado financeiro e na opinião do ex-presidente do Fed, Alan Greenspan, é a pior dos últimos 50 anos.
Mais perplexo por, ao passar em frente de sua sede, encontrar pessoas chorando na calçada, pais desesperados sem saber como dar a notícia em casa e pagar as contas no final do mês, gente anônima segurando cartazes de protesto afirmando que Deus vai voltar. São imagens que jamais sairão da minha mente e, certamente, de todos os 20 mil funcionários demitidos – segundo previsões da própria instituição - no mundo inteiro.
Ainda atônito com todos os impactos provocados, eis que em meio de tudo isso desperto para um dos fatores que desencadearam a falência do Lehman Brothers: seu planejamento estratégico falhou. Não poderia deixar de aproveitar a ocasião e chamar a atenção para o fato de que as empresas continuam incorrendo no erro mais comum do universo de negócios: a falta de um planejamento estratégico sólido.
Algumas sequer fazem uma reflexão mais profunda sobre o posicionamento que desejam ter no mercado. Outras adotam uma postura arrogante e ignoram os concorrentes, sobretudo aquelas que construíram verdadeiras hegemonias. Mas esquecem que da mesma forma que alcançaram posição de liderança absoluta, um dia podem acordar destituídas de seus tronos.
Foi assim com a Kodak. Embora tenha se antecipado ao futuro, sendo uma das pioneiras da fotografia digital, cometeu o erro fatal de preservar seu modelo de negócios: o rolo de filmes. Resultado, mesmo saindo à frente de boa parte dos rivais, deixou que seus concorrentes a ultrapassassem.
Hoje, numa tentativa dramática de reverter a queda de “market share” no mundo, a gigante demoliu quase 100 prédios que formavam seu complexo industrial, colocando à venda seus terrenos em busca de uma transformação radical, a qual consumiu mais de 6 bilhões de dólares e levou a cortar cerca de 50.000 empregos, de acordo com informações do Wall Street Journal.
Talvez muitos ainda não tenham se dado conta de que para sobreviver à selva dos negócios é necessário traçar metas e ações, antecipar-se às mudanças, prever cenários otimistas, pessimistas e reais. Analisar ameaças e antever oportunidades. Além, é claro, de pesar o potencial de entrada de outros concorrentes, como defende o guru Michael Porter e professor de estratégia da Harvard Business School.
Vejam o preço que a Kodak vem pagando ao ignorar as mudanças do mercado e subestimar os rivais. Enfrenta um quadro de difícil recuperação, reflexo de uma estratégia mal desenhada. Talvez, até, um caminho sem volta. O que me faz lembrar de um grande ícone do varejo brasileiro, a Mesbla. Seu naufrágio duro e impiedoso não deixou pedra sobre pedra. É planejar ou morrer. A escolha é sua.
