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Planejar ou morrer: o que fez o Lehman Brothers?

isgetkv25170908175430photo01.JPGDesde o caso da Enron não assistia a cenas tão impressionantes quanto as da quebra do Lehman Brothers, quarto maior banco de investimentos dos Estados Unidos. Só não imaginava me ver bem no centro de todo o furacão.  E que furacão! Coincidência ou não, neste momento estou em Nova York, diante de uma crise que entrará para a história do mercado financeiro e na opinião do ex-presidente do Fed, Alan Greenspan, é a pior dos últimos 50 anos.

Mais perplexo por, ao passar em frente de sua sede, encontrar pessoas chorando na calçada, pais desesperados sem saber como dar a notícia em casa e pagar as contas no final do mês, gente anônima segurando cartazes de protesto afirmando que Deus vai voltar. São imagens que jamais sairão da minha mente e, certamente, de todos os 20 mil funcionários demitidos – segundo previsões da própria instituição - no mundo inteiro.    

Ainda atônito com todos os impactos provocados, eis que em meio de tudo isso desperto para um dos fatores que desencadearam a falência do Lehman Brothers: seu planejamento estratégico falhou.  Não poderia deixar de aproveitar a ocasião e chamar a atenção para o fato de que as empresas continuam incorrendo no erro mais comum do universo de negócios: a falta de um planejamento estratégico sólido.

Algumas sequer fazem uma reflexão mais profunda sobre o posicionamento que desejam ter no mercado. Outras adotam uma postura arrogante e ignoram os concorrentes, sobretudo aquelas que construíram verdadeiras hegemonias. Mas esquecem que da mesma forma que alcançaram posição de liderança absoluta, um dia podem acordar destituídas de seus tronos.

Foi assim com a Kodak. Embora tenha se antecipado ao futuro, sendo uma das pioneiras da fotografia digital, cometeu o erro fatal de preservar seu modelo de negócios: o rolo de filmes. Resultado, mesmo saindo à frente de boa parte dos rivais, deixou que seus concorrentes a ultrapassassem.

Hoje, numa tentativa dramática de reverter a queda de “market share” no mundo, a gigante demoliu quase 100 prédios que formavam seu complexo industrial, colocando à venda seus terrenos em busca de uma transformação radical, a qual consumiu mais de 6 bilhões de dólares e levou a cortar cerca de 50.000 empregos, de acordo com informações do Wall Street Journal.

Talvez muitos ainda não tenham se dado conta de que para sobreviver à selva dos negócios é necessário traçar metas e ações,  antecipar-se às mudanças, prever cenários otimistas, pessimistas e reais. Analisar ameaças e antever oportunidades. Além, é claro, de pesar o potencial de entrada de outros concorrentes, como defende o guru Michael Porter e professor de estratégia da Harvard Business School. 

Vejam o preço que a Kodak vem pagando ao ignorar as mudanças do mercado e subestimar os rivais.  Enfrenta um quadro de difícil recuperação, reflexo de uma estratégia mal desenhada. Talvez, até, um caminho sem volta. O que me faz lembrar de um grande ícone do varejo brasileiro, a Mesbla. Seu naufrágio duro e impiedoso não deixou pedra sobre pedra. É planejar ou morrer. A escolha é sua.

5 Respostas para “Planejar ou morrer: o que fez o Lehman Brothers?”


  1. Icone Gravatar 1 Keila

    Julio Sergio, que depoimento preciso e emocionante. Trabalhei no setor fotográfico no seu auge e conheço bem a história da Kodak. É quase inacreditável o que aconteceu, mas a arrogância também foi fator determinante do fracasso. Não acreditavam no digital e criaram o APS ( não sei se alguém lembra), foi um lançamento forçado para não aderir ao digital e convencer o mercado de que o rolo de filme, químico e papel seriam imortais.
    ps. O Jorge está de férias em NY, que coincidência.

  2. Icone Gravatar 2 Adriana Salles Gomes

    Essas histórias são muito dramáticas, fico sempre chocada, até porque elas têm impacto profundo na sociedade. Mas aproveitando a deixa, Julio, queria saber o que vc acha do grande debate da estratégia de hoje que é, basicamente, o Michael Porter praticamente sozinho de um lado dizendo que a estratégia tem de ser estável e duradoura para funcionar, e vários especialistas do outro garantindo que a estratégia tem de ir mudando conforme muda a música, ou seja, o ambiente ao redor da empresa.

  3. Icone Gravatar 3 Julio Sergio

    Adriana, conheci o Porter quando ele ainda era apenas professor de Harvard e tenho muita admiracao por ele. Mas, infelizmente, as ideias dele envelheceram ou, melhor, o mundo ficou mais dinamico, na velocidade da Internet e muito mais globalizado. Nao da mais para planejar a estrategia e acreditar que ela sera duradoura. Os planos continuam sendo muito necessarios,cada vez mais necessarios, mas se adaptando as mudancas ciclicas e as vezes repentinas que ocorrem no ambiente de negocios. Tendo defendido a tese de que se deve fazer plano estrategico para os proximos 5 anos com base nas premissas conhecidas, visao do empreendedor, muita analise de dados e projecao de tendencias. Porem, a cada ano, a estrategia precisa ser revista, rebustecida e, se necessario, alterada, de modo a manter a empresa conectada com o mundo real. Afinal, planejamento estrategico nada mais e do que preparar a empresa para um futuro incerto que se imagina que vira e se esse futuro nao aparente ser aquele que se imaginava, entao e hora de rever os planos. Concordo que as atuais historias sao dramaticas, mas precisam ser contadas e comentadas. Afinal, estamos diante de uma tragedia humana de proporcoes desconhecidas. Desculpem os leitores-internautas pela ausencia de acentuacao. O teclado que estou usando no Admiral’s Club da AA “fala” portugues americano!

  4. Icone Gravatar 4 Julio Sergio

    Onde se le “rebustecida”, por favor, leia-se “robustecida”.

  5. Icone Gravatar 5 Adriana Salles Gomes

    Interessante, Júlio. Sabe que eu desconfio que o Porter sabe muito bem disso, né? Acho que sua insistência na não-mudança é uma forma quase de contraponto político, para as empresas se ancorarem um pouco mais. Não sei.

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