Ao contrário do ambiente de tensão que invade os Estados Unidos após o pedido de concordata do Lehman Brothers e do socorro do tesouro americano à AIG, no Brasil não há, pelo menos por enquanto, indícios de que a crise vá causar grandes estragos. Parece, inclusive, que a crise continua bem distante de nós. Enquanto lá fora pude ver o desespero estampado no rosto de muitos americanos, aqui seus reflexos não chegaram à vida dos brasileiros. Mas causa calafrios.
Parte da população continua inebriada ao atravessar um momento de euforia, com recordes de investimento. Eu disse parte, porque algumas pessoas começam a questionar se enfrentaremos um furacão ou apenas uma forte tempestade. Claro que nada perto do clima de pânico que já nos acometeu no passado. A perspectiva de uma volta da inflação, da eventual queda nos preços internacionais das commodities ou da falta de crédito, gera incertezas.
Mal desembarquei em São Paulo vindo de Nova York e ouvi gente perguntando: “Com as oscilações da Bolsa, devo continuar mantendo meu dinheiro nela?” ou “Estava querendo trocar de carro, será essa a hora de fazer um financiamento?”. Até mesmo questões como a viabilidade de comprar dólar agora ou não para a viagem de fim de ano têm provocado dúvidas e angústias.
Mesmo diante dos poucos sinais de retração em nossa economia, é preciso cautela. O melhor agora é esperar. No início da semana li uma entrevista do presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, na Folha de São Paulo, afirmando que a economia brasileira construiu uma “resistência” à crise atual. Apesar de ainda estarmos imunes a toda essa turbulência global, ainda é cedo para sabermos se seremos ou não atingidos, e de que forma poderemos ser afetados.
Nos últimos 13 meses, revivemos o fantasma da grande crise de 1929 – considerada uma das piores tragédias econômicas da história - que tem assombrado o mercado financeiro mundial. Ignorar os fatos é uma atitude arriscada e perigosa. Os economistas não prevêem uma onda de demissões no país, mas não dá para a população continuar saindo por aí e se endividando irresponsavelmente em financiamentos da casa própria e do carro novo.
Recuo que, certamente, afetará o consumo interno. O varejo já refez suas estimativas de vendas para o Natal deste ano. Embora otimistas, com uma previsão de aumento em torno de 6%, o setor teme que se a Selic (taxa básica de juros) continuar subindo, as vendas sejam mais fracas em comparação a 2007, segundo matéria do jornal O Estado de São Paulo, publicada domingo último.
Por mais que estejamos “blindados” até agora e cruzemos os dedos para que o socorro do governo Bush, estimado em US$ 700 bilhões, de fato aconteça, todo cuidado é pouco. E que nos sirva de lição, acima de tudo. Mesmo porque ninguém soube até agora explicar direito o que está acontecendo. Muito menos fazer qualquer tipo de previsão sobre o que vai acontecer nos próximos meses.
Mas é cedo ainda para sabermos de que forma seremos atingidos. De uma forma ou de outra, o mercado não será mais o mesmo daqui para frente. Bush chamou a cavalaria, mas por aqui não dá pro Lula chamar os Dragões da Independência e “salvar a Pátria”!
