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Demitam o presidente e apertem o conselho

Em meio a toda essa onda de nervosismo em razão da crise financeira, outra notícia mexe com o mercado brasileiro esta semana. A volta de Luiz Fernando Furlan à presidência do conselho de administração da Sadia, seis anos após deixar a empresa para comandar o Ministério do Desenvolvimento. Seu retorno, nada mais é do que uma das saídas encontradas pela Sadia para recuperar a confiança no mercado.

É uma resposta às perdas de R$ 760 milhões com apostas equivocadas em derivativos de dólar, anunciadas há duas semanas. Desde então, suas ações, que valiam mais de R$ 10 reais, passaram a oscilar entre R$5 e R$6 reais. Embora a Sadia tenha recolocado em caixa cerca de R$ 1,5 bilhão, a questão da uma possível transgressão de regras traz à tona um assunto de extrema importância: de quem é a responsabilidade pelas operações, que não só provocaram perdas, mas causaram apreensão aos acionistas.

Não tenho dúvidas que o presidente é peça-chave em situações dessa esfera. Os diretores têm dificuldade em dimensionar o tamanho do risco assumido. Desconfio que eles não entendam a complexidade que envolve esse tipo de transação.  Por isso, enxergo uma necessidade urgente de maior transparência nas operações brasileiras com derivativos, mais controle e participação da auditoria interna.

Não se pode culpar apenas o diretor financeiro, como o fez a Sadia, ao demitir seu CFO, Adriano Ferreira.  Passos seguidos pela Aracruz, que também afastou o diretor financeiro, Isac Zagury. A fabricante de celulose também enfrenta problemas parecidos ao Sadia, por apostar na desvalorização do dólar.

No início da semana, a empresa informou que teria um prejuízo ainda maior se desmontasse as operações no final de setembro, que chega a R$1,95 bilhão. No entanto, ninguém sabe ainda se ela já se desfez desses contratos ou se mantém as apostas na queda do dólar.

Repito aqui. Medidas como essas de associar perdas ao corpo de diretores não vão minimizar os impactos negativos no mercado. Embora dividam responsabilidades nas ações tomadas, os diretores financeiros replicam uma decisão que cabe ao CEO aprovar.

Também não podemos esquecer-nos do papel determinante que o conselho de administração exerce na supervisão dos caminhos traçados por diretores. O próprio regulamento dos comitês de auditoria e conselhos fiscais deixa claro que é seu papel fiscalizar o cumprimento das normas internas da companhia.

Curiosamente, diante de tanto controle - a Sadia se destacou por ter formado um conselho considerado exemplo para o mercado - como tudo isso pode escapar de seu controle? Será de fato que o controle é exercido como deveria acontecer?

Por que será que Furlan substituiu Walter Fontana Filho, presidente do conselho da Sadia até dias atrás quando foi destituído do cargo? Certamente, Fontana saiu desgastado por ser a ele que Adriano Ferreira respondia - e não a Gilberto Tomazoni, presidente-executivo da companhia, especula-se.

Ferreira foi demitido após o conselho descobrir que ele havia apostado na queda do dólar, um montante de recursos muito superior ao necessário para cobrir eventuais prejuízos da Sadia com a variação cambial – contrariando as regras do estatuto da empresa. Mas me questiono se realmente o conselho desconhecia a operação.

Se sim, o problema é ainda mais grave. Presidente e conselheiros estariam à margem de algo tão delicado? Em breve, os primeiros relatórios sobre o caso devem ser entregues pela KPMG, contratada pela Sadia para fazer uma auditoria em suas contas e descobrir se houve falhas nos controles internos de operações financeiras.

Agora, será preciso bater na tecla milhões de vezes sobre a importância de se adotar mecanismos internos de controle de riscos? Em matéria publicada no Valor Econômico da semana passada, especialistas voltaram a levantar esse ponto. Lamentavelmente assistimos a tudo isso, depois dos impactos estrondosos da Enron e tantas outras que aconteceram de lá para cá.

Aproveitar o acesso a crédito e do caixa para fazer operações arriscadas, visando ganho financeiro exige, no mínimo, atenção de quem está no topo. Precisamos é de executivos preparados para ocupar o cargo de presidente. Precisamos de profissionais ilibados e atentos para sentar na cadeira do conselho. Cenas dos próximos capítulos nos aguardam.

6 Respostas para “Demitam o presidente e apertem o conselho”


  1. Icone Gravatar 1 Adriana Salles Gomes

    Julio, ótimas observações as suas, como sempre. Confesso que desmontei com o ocorrido com a Sadia, uma empresa ícone para mim –e o mesmo deve ter acontecido com muita gente. E fiquei passada também pelo Fontana e pelo Adriano Ferreira, tidos e havidos sempre como muito responsáveis e experts no que fazem. Mas tenho uma pergunta pra vc: está claro que houve transgressão de regras na operação dos derivativos e que era possível enxergar isso no calor da operação? (Pergunto isso mesmo com o Tomazoni tendo dito que a política de risco, limitada a seis meses de exportações, estava fora dos trilhos equivalendo a um ano, porque esse esticamento poderia ter a ver com toda a “capacidade de adaptação” e “flexibilidade” que se exige das empresas hoje.) E, se foi transgressor na sua opinião, está claro que o conselho como um todo e o Fontana em particular podiam mesmo ter percebido e brecado isso?
    Tenho medo de apedrejamentos –e operações de derivativos dão margem para eles, porque são super complexas, sempre uma aposta a favor de alguma coisa e contra outra, o que torna fácil dizer que há más intenções e/ou irresponsabilidade ali. Muito facilmente os derivativos podem gerar uma coisa assim: deu errado, foi porque o sujeito saiu da linha e deve ser demitido; deu certo, ele é alçado à condição de gênio: a Southwest Airlines garantiu gasolina muito barata para seus aviões por muito tempo graças aos derivativos. ela foi gênio. A Sadia podia estar calçando sua internacionalização e talvez fosse considerada gênio, não tivesse dado tudo errado. Acho que minha pergunta, no fundo, é: até que ponto isso não é um erro que deve ser esperado no ambiente de negócios atual, que tem os instrumentos financeiros e os paradigmas de competitividade que todos conhecemos? Abs!

  2. Icone Gravatar 2 Jorge Carvalho

    Júlio, essa discução foi intensa lá no World Business Forum no final de Setembro. O Welch defendeu que o presidente do conselho deve ser diferente do CEO da empresa, o que me parece fazer todo o sentido. Um deve ajudar o outro a tomar decisões acertadas e não deve haver centralização extrema de poder. Já as operações com derivativos, foi a razão de muita bonanza nesses últimos anos. Ao mesmo tempo que deve haver mais mecanismos de controle, não podemos engessar o sistema e suprimir a criação de novos produtos financeiros. Mais um ponto muito levantado no Fórum foi o fato que muitos CEOs e Diretores Financeiros, por mais experiêntes e competêntes, terem assinado acordos e fechado negócios que não compreendiam em profundidade. Conselho de mãe: “Leia sempre aquilo que for assinar” Um abraço!

  3. Icone Gravatar 3 Julio Cardozo

    Adriana, Tenho a impressão que o Conselho sabia da operação. Os controles internos da Sadia devem ser fortes e, neste caso, uma operação de tal envergadura não poderia ter sido realizada sem o conhecimento do CEO e do Chairman do Conselho. O Jorge tem razão: minha experiência diz que os diretores, de maneira geral, não entendem a extensão dos riscos que estão assumindo em operações com derivativos. Pobre dos acionistas. E mais: antevejo novos casos à medida que a cotação do dólar permaneça irracional como está nestes dias. Luto por normas mais eficázes de controle o que não significa, de maneira alguma, engessamento. E luto, igualmente,pela escolha de conselheiros capazes.

  4. Icone Gravatar 4 Adriana Salles Gomes

    Acho que eu não me expliquei bem, Julio.Tb acho que o conselho sabia e, embora eu não ache que conselheiros capazes necessariamente dominam o mercado de derivativos, é claro que eles podem se cercar (e devem ter se cercado) de assessores técnicos pra entender do riscado. Minha questão é outra: se se pede mais ousadia das empresas (os acionistas pediam, Wall Street pedia, até a mídia pedia, o tempo todo) e se se lhes oferecem amplos instrumentos pra isso, uma operação de risco como essa de derivativos vira algo cotidiano, normal, esperado. Quando dá errado, é apenas mais um erro. Estou simplificando e exagerando no tom, claro, em nome da argumentação. Mas por que o Fontana e o conselho perceberiam o risco como algo tão ruim num mercado que até há pouco era “risco”-friendly e, assim, por que o brecariam? E se tudo isso não passou de um grande erro num mercado que até há pouco era “erro”-friendly? Estou com a sensação de que, quando a expressão “nova economia” ganhou a boca do povo, nós (todos nós, de consumidores a investidores) estabelecemos regras do jogo mais fluidas para as empresas e agora cobramos delas um rigor que não combina com essa fluidez. Outra discussão é sobre mudar as regras do jogo. Aí concordo. Mas estou procurando a coerência da coisa (e, do ponto de vista ético, acho isso que aconteceu com a Sadia bem diferente do que aconteceu com Enron & cia.).

  5. Icone Gravatar 5 Julio Cardozo

    Adriana, existem pelo menos duas questões a considerar no caso da Sadia: (i)o grau de risco da operação, porque operações desta natureza necessariamente encerram riscos; e (ii)o processo interno de decisão. O que qestiono no texto é, justamente, o processo decisório que, pelas notícias fartas que se tem sobre o episódio, merece ser robustecido. Alguém deixou de fazer a sua parte (não soa familiar?) Há, sim, semelhanças com a Enron no que concerne ao tema: derivativos, mas, entretanto, não há qualquer semelhança aparente com a questão ética, ou melhor, falta dela, principal motivo da quebra da Enron. Novos capítulos virão, pois esta história tem desdobramentos e não serão boas notícias, infelizmente.

  6. Icone Gravatar 6 Adriana Salles Gomes

    É, eu sei, esses novos capítulos me preocupam bastante…Abs!

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