Atuar em conselhos de administração virou objeto de desejo de quase todos ex-presidentes e executivos do alto escalão que se aposentaram. E não sem razão. Diante da profissionalização na gestão de empresas no Brasil, os conselhos ganharam força. Principalmente aqueles formados por membros independentes, sem qualquer vínculo com a organização, criando inúmeras oportunidades para profissionais experientes e com enorme bagagem no mundo corporativo.
O problema que vejo, no entanto, é a avidez com que esses profissionais vêm aceitando convites. Muitos sequer fazem uma pré-avaliação rigorosa dos desafios que encontrarão pela frente. Raros são aqueles que pesam na balança os riscos e as obrigações legais que assumem no momento em que passam a ocupar assento no “board”. Além de serem mais exigidos pelos acionistas, que cobram uma forte atuação nas estratégias da companhia, os conselheiros possuem a mesma responsabilidade civil dos administradores.
É em meio a essa maré desenfreada de oportunidades que ressalto a necessidade de se ter cautela, muita cautela. Não é redundância falar que todo cuidado é pouco na hora de agarrar a chance de fazer parte de um “board”. Reconheço que à primeira vista, qualquer um fica deslumbrado ao ser chamado para exercer uma atividade que hoje dá poder e status. Mas quero lembrar que com a revolução da governança corporativa, após a quebra da Enron, o papel dos conselheiros mudou radicalmente.
Tanto que me tornei mais criterioso ao aceitar participar de conselhos. Desde que tive de me aposentar da empresa, a qual era sócio-presidente, por regra da companhia, há um ano, venho recebendo várias propostas para integrar “boards”. E por diversas razões preferi declinar. Entre elas destaco o fato de não acreditar na seriedade das políticas de governança de uma das empresas e em outro caso achar que não daria contribuições em um modelo de negócios, a meu ver inexeqüível.
Em entrevista dada à revista Valor Investe deste mês, uma publicação do jornal Valor Econômico, falo exatamente sobre isso. Apesar de um dos convites ter sido bastante tentador, ponderei os reflexos negativos que poderiam me causar caso minha decisão não fosse bem-sucedida. Sobretudo, porque ficaria à frente do conselho fiscal de uma companhia, que usaria minha credencial de ex-presidente de uma das maiores firma de auditoria do mundo para conferir credibilidade ao negócio.
Exemplos como o da Agrenco, onde os sócios controladores foram presos como suspeitos de desvio de dinheiro da companhia e fraude de balanços, nos mostra a importância de questionar quando colocar seu nome em jogo, um patrimônio que considero imensurável, pode representar um risco. Integrar conselhos de administração, na maioria dos casos, é sinônimo de arrancada na carreira. Mas um passo mal dado pode levá-lo à ruína. Por isso, antes de qualquer decisão, pense muito bem. (Leia aqui a matéria na íntegra). [+]
