Após promover uma reviravolta na subsidiária brasileira da Reckitt Benckiser, dona de marcas líderes como Veja e Bom Ar, o executivo Carlos Trostli se viu numa encruzilhada. No final de 2007, o alto escalão da multinacional o queria na sede da companhia, em Londres. Sua missão: comandar a unidade de negócios do produto Vanish no mundo.
Na época, o executivo já respondia pelos negócios na América do Sul. Então, dar um passo bem mais alto, direto para a matriz, seria o ápice em sua carreira, certo? Errado. Trostli disse não. O que, segundo entrevista dada à revista Isto é Dinheiro, em fevereiro passado, “Representou uma decisão dificílima. Mas não teve jeito”.
Histórias como essa se repetem quase que diariamente na vida de muitos profissionais. E a grande dúvida que paira no ar é: vale a pena fazer de fato carreira internacional? Esta é uma questão que precisa ser muito bem pensada e discutida com a família. É claro que você abre os horizontes, aprende a lidar com outras culturas e cria um diferencial competitivo.
Ganhar uma experiência ímpar que o destacará entre seus colegas, sem dúvida, pode levá-lo a posições de destaque. Além de imprimir uma trajetória de sucesso, inigualável. Sobretudo na era da globalização. No entanto, aceitar uma proposta para atuar fora do país exige cuidado e atenção.
Nem preciso dizer que pesar os prós e contras é indispensável. Mais do que isso. Não podemos esquecer que o sonho pode transforma-se em pesadelo. Um problema já conhecido pelas multinacionais instaladas no país começa a preocupar as empresas brasileiras. É a volta dos executivos transferidos para operações no exterior.
Dados de uma pesquisa realizada pela Fundação Dom Cabral (FDC) – www.fdc.org.br - com 165 profissionais de 10 dos maiores grupos privados instalados no Brasil, apontam que 20% deles deixam a companhia no primeiro ano após retornarem ao Brasil e 40% no segundo ano.
Além disso, 60% não têm emprego garantido quando são “repatriados”, 87% acabam não sendo promovidos como era o esperado e 80% sentem que a experiência adquirida lá fora não é valorizada como deveria. Ou seja, se a ida para filiais internacionais continua sendo uma prova de fogo, o retorno é uma incógnita.
A mesma pesquisa mostra também que mais da metade das transferências não dão certo porque a família do executivo tem dificuldade de adaptação. Por isso, a necessidade de se planejar muito bem qualquer tipo de ação para não se ver envolvido em frustrações.
Trostli resolveu pagar o preço de sua decisão por não querer ficar longe dos filhos. Por outro lado, sabia que não haveria como permanecer na companhia. Talvez a Reckitt não o tenha “colocado na parede”, mas é bom lembrar que a maioria das empresas não aceita uma negativa quando propõe ao funcionário uma promoção ou transferência. Alcançar projeção global é uma das principais ambições de quase todo executivo.
Agora, lembrem-se. Não existe opção na vida sem ter perdas e ganhos. O que cada um precisa olhar é se realmente está disposto a seguir ou se quer abrir mão. Interrogações à parte, não esqueçam que para ter sucesso de fato, o desafio é fundamental, mas não suficiente. E, se o coração falar mais alto, siga sua intuição. De repente você vai se deparar com um trunfo valiosíssimo à sua frente.
