Outro dia, questionado por um jornalista se eu havia me arrependido de algo em minha vida, respondi: “não ter visto meu filho crescer”. Dificilmente me arrependo daquilo que já fiz. Prefiro arriscar e ver meus sonhos irem por água abaixo do que me arrepender de nunca ter tentado. Mas reconheço que uma das poucas coisas que gostaria de mudar é o tempo dedicado a acompanhar meu filho pular os degraus da infância à fase adulta.
Infelizmente, só acordei para a realidade quando encontrei no elevador, há oito anos, um jovem vestido de branco, que acabara de entrar na faculdade de medicina, e levei um susto. Era meu filho. Ali percebi que ao mergulhar dia e noite – e várias vezes, percorrendo a madrugada – no trabalho havia esquecido de olhar para a família.
Assim como eu, milhares de executivos se vêem na mesma situação que passei. O trabalho exige, a carreira impõe, mas confesso que nada recupera os dias, meses e anos perdidos. Acredito que esse possa ser um alerta para quem está lendo o blog neste momento. O mundo executivo não pode roubar seu bem mais precioso: a vida. Ela corre lá fora e não deve ser sucumbida única e exclusivamente à carreira.
Precisamos, de verdade, transformar esse cenário. Nunca se falou tanto em qualidade de vida quanto agora. Cada dia mais as empresas tentam incentivar seus funcionários a conciliar vida pessoal com profissional. Mas por que a maioria dos executivos continua viciado em trabalho? O que muitos talvez ainda não tenham despertado é para o fato de continuarem adotando a postura de “workaholics” por medo de perderem o emprego ou se sentirem incapazes de não dar conta de seus desafios.
Segundo o professor de saúde pública Brian Oldenburg, da Universidade Monash, em Melbourne, na Austrália, durante palestra no 8º Congresso da International Stress Management Association, realizado em junho passado no Brasil, 60% das pessoas que sofrem de ansiedade ou depressão continuam trabalhando. Mesmo vítimas do estresse, empurram para debaixo do tapete o problema estimulado pelos chefes.
Sim, é comum os profissionais serem avaliados pelo horário que chegam e que saem. E o que é pior, com a era digital você precisa estar disponível 24 horas, os 7 dias da semana, inclusive sábados, domingos e feriados. Quem pensou que as extensas jornadas de 10, 12 ou até 16 horas diárias acabariam nas empresas está enganado. A tecnologia levou para dentro de casa toda uma parafernália - a exemplo do laptop, BlackBerry, iPhone e essa nova geração de celulares com conexão à internet -, mantendo os profissionais conectados o tempo inteiro.
Como então encontrar uma solução? Não há mistério. Enquanto a cabeça dos líderes funcionar do mesmo jeito, as pressões continuarão as mesmas. De nada adianta abrir uma academia dentro da empresa ou promover sessões de massagem antiestresse quando são ações meramente paliativas. A rotina exaustiva continuará sendo a mesma, os casamentos continuarão sendo desfeitos e os filhos continuarão sofrendo com a ausência dos pais.
Uma carreira de sucesso não pode sobrepujar sua vida pessoal e os chefes precisam entender que jamais conseguirão o melhor de seus subordinados se os mantiverem infelizes, insatisfeitos e à beira do esgotamento físico e mental. Emprego novo e outras conquistas profissionais você até encontra por aí, já o relacionamento com sua família nem sempre se recupera.
Acredito que ainda estamos bem longe de encontrar saídas para a falta de tempo que os executivos têm em não apenas olhar para dentro de si. Mas de se livrar de sentimentos como a culpa, o remorso e ressentimentos que é o campo minado da vida executiva. Quase não pude ajudar meu filho na lição de casa, muito menos comparecer às reuniões na escola. Será mesmo que vale a pena? Precisamos repensar essa carga absurda de trabalho que destrói a vida de quem chega no topo.
