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“Não vi meu filho crescer”

11161612161365312.JPGOutro dia, questionado por um jornalista se eu havia me arrependido de algo em minha vida, respondi: “não ter visto meu filho crescer”. Dificilmente me arrependo daquilo que já fiz. Prefiro arriscar e ver meus sonhos irem por água abaixo do que me arrepender de nunca ter tentado. Mas reconheço que uma das poucas coisas que gostaria de mudar é o tempo dedicado a acompanhar meu filho pular os degraus da infância à fase adulta.

Infelizmente, só acordei para a realidade quando encontrei no elevador, há oito anos,  um jovem  vestido de branco, que acabara de entrar na faculdade de medicina, e levei um susto. Era meu filho. Ali percebi que ao mergulhar dia e noite – e várias vezes, percorrendo a madrugada – no trabalho havia esquecido de olhar para a família.

Assim como eu, milhares de executivos se vêem na mesma situação que passei. O trabalho exige, a carreira impõe, mas confesso que nada recupera os dias, meses e anos perdidos.  Acredito que esse possa ser um alerta para quem está lendo o blog neste momento. O mundo executivo não pode roubar seu bem mais precioso: a vida. Ela corre lá fora e não deve ser sucumbida única e exclusivamente à carreira.

Precisamos, de verdade, transformar esse cenário. Nunca se falou tanto em qualidade de vida quanto agora. Cada dia mais as empresas tentam  incentivar  seus funcionários a conciliar vida pessoal com profissional. Mas por que a maioria dos executivos continua viciado em trabalho? O que muitos talvez ainda não tenham despertado é para o fato de continuarem adotando a postura de “workaholics” por medo de perderem o emprego ou se sentirem incapazes de não dar conta de seus desafios.

Segundo o professor de saúde pública Brian Oldenburg, da Universidade Monash, em Melbourne, na Austrália, durante palestra no 8º Congresso da International Stress Management  Association, realizado em junho passado no Brasil,  60% das pessoas que sofrem de ansiedade ou depressão continuam trabalhando. Mesmo vítimas do estresse, empurram para debaixo do tapete o problema estimulado pelos chefes.

Sim,  é comum os profissionais serem avaliados pelo horário que chegam e que saem. E o que é pior, com a  era digital você precisa estar disponível 24 horas, os 7 dias da semana, inclusive sábados, domingos e feriados. Quem pensou que as extensas jornadas de 10, 12  ou até 16 horas diárias acabariam nas empresas está enganado. A tecnologia levou para dentro de casa toda uma parafernália  - a exemplo do laptop, BlackBerry, iPhone e essa nova geração de celulares com conexão à internet -, mantendo os profissionais conectados o tempo inteiro.

Como então encontrar uma solução? Não há mistério. Enquanto a cabeça dos líderes funcionar do mesmo jeito, as pressões continuarão as mesmas. De nada adianta abrir uma academia dentro da empresa ou promover sessões de massagem antiestresse quando são ações meramente paliativas.  A rotina exaustiva continuará sendo a mesma, os casamentos continuarão sendo desfeitos e os filhos continuarão sofrendo com a ausência dos pais.

Uma carreira de sucesso não pode sobrepujar sua vida pessoal e os chefes precisam entender que jamais conseguirão o melhor de seus subordinados se os mantiverem infelizes, insatisfeitos e à beira do esgotamento físico e mental. Emprego novo e outras conquistas profissionais você até encontra por aí, já o relacionamento com sua família nem sempre se recupera.

Acredito que ainda estamos bem longe de encontrar saídas para a falta de tempo que os executivos têm em não apenas olhar para dentro de si. Mas de se livrar de sentimentos como a culpa, o remorso e ressentimentos que é o campo minado da vida executiva. Quase não pude ajudar meu filho na lição de casa, muito menos comparecer às reuniões na escola. Será mesmo que vale a pena? Precisamos repensar essa carga absurda de trabalho que destrói a vida de quem chega no topo.

7 Respostas para ““Não vi meu filho crescer””


  1. Icone Gravatar 1 Adriana Salles Gomes

    Nossa, Julio, vc tem se superado! Este post me tocou profundamente, a mim e certamente a todas as mulheres profissionais, que ou sofrem por perder tudo isso (terceirizando os cuidados com os filhos), ou são obrigadas a fazer um slowdown de carreira e a abrir mão de chegar aonde poderiam por conta da família. (Ou as duas coisas simultaneamente, na verdade.) Mas sei que para a maioria dos homens deve doer tanto quanto. Eu acho que reverter isso não é tão difícil: só depende de uma decisão conjunta do mundo das empresas e do trabalho.

  2. Icone Gravatar 2 Wagner Brenner

    Post cheio de sabedoria Julio.

  3. Icone Gravatar 3 Leonardo Araujo

    Um amigo meu acabou de recusar uma proposta para um bom cargo, numa grande empresa, fora do país, justamente porque outro amigo qua havia ido, decidiu voltar por causa da família e filhos e perguntou ao primeiro quanto valia em dinheiro os anos de vida que ele havia passado ao lado de sua primeira filha, hoje com 5 anos. A resposta foi: não tem preço. Então, o amigo que voltou disse que se ele fosse estaria estipulando um preço para os anos que não passaria ao lado sua filha mais nova, de 1 aninho. Acho que certos tipos de trabalho são muito bons, cativantes e desafiadores, mas para quem ainda não corre o risco de jugar fora os momentos que podem viver ao lado da família a filhos.
    Belo post. Abraço.

  4. Icone Gravatar 4 Julio Sergio

    Leo, veja o meu post sobre carreira internacional mais abaixo e lá você encontrará algumas reflexões adicionais sobre o tema. Hoje, posso afirmar, que nenhum dinheiro ou posição do mundo compensa a ausência do convívio familiar. Somos animais gregários e devemos agir como tal, sendo a família o núcleo básico para sobrevivência como indivíduos e pessoas. Seus comentários são ótimos.

  5. Icone Gravatar 5 Raquel Costa

    Gostei muito post, Julio. Tem muita sabedoria e é profundamente humano!

  6. Icone Gravatar 6 Davi Carvalho

    Excelent post Júlio. Parabéns! Precisamos, sempre, ver e rever conceitos básicos como a convivência com nossa família. São reflexões como esta que nos fazem parar e pensar um pouco mais se vale a pena tanto sacrificio. Obrigado.

  1. 1 O tempo está mais curto? « HSM

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