por Neto, via UoD
Em 1970, eu morava na casa da minha avó. Tinha 6 anos e o Brasil estava ganhando o Tri Campeonato no México. Como nunca dormi cedo, naquela época eu sempre inventava uma historinha fantástica qualquer, para dormir. Aquelas historinhas embalavam o sono e, quando eram boas, duravam várias noites e realmente me davam vontade de ir para cama mais cedo. Uma das que eu mais gostava era a de que, embaixo do vaso do jardim da casa da minha avó, existia uma passagem secreta para um esconderijo (que, nas minhas fantasias, era muito parecido com a caverna do Batman). Lá no meu esconderijo secreto tinha um computador. Eu não sabia direito como era um computador, mas tinha uma máquina qualquer, que respondia todas as perguntas que um menino de 6 anos pudesse fazer. Eu adorava essa história. Assim, lá pelo início dos anos 80, quando apareceram os primeiros computadores, eu sabia que precisava ter um.
Steve Wozniak deve ser, o quê? Uns 15 anos mais velho do que eu. Cresceu em Silycon Valley, filho de um engenheiro eletrônico e, desde criança, mostrou enorme habilidade para a matemática. Aos 10 anos de idade, Woz já havia construído um circuito capaz de jogar o jogo-da-velha e um rádio transmissor e receptor. Na década de 50! Seu talento precoce o levou, ainda adolescente, para a HP. Ali, com acesso a manuais e equipamentos de última geração, em pouco tempo conseguiu ampliar seus conhecimentos e conceber o primeiro computador pessoal do mundo. Nessa época, Woz conheceu Steve Jobs, os dois tornaram-se melhores amigos e, pela insistência de Jobs, os dois abriram uma empresa para fabricar os computadores que Woz por 7 vezes apresentou para a HP e foram rejeitados. A Apple cresceu para se tornar a empresa que é hoje, mas após o lançamento do Mac, Wozniak - que sofreu amnésia temporária depois de um acidente de avião - preferiu seguir outros caminhos, atendendo à sua vocação criativa.
Woz não é um homem de marketing. Woz não é um CEO famoso. Mas Woz, como Bill Gates, Paul Allen e Steve Jobs, mudou a história contemporânea a partir de uma idéia tão óbvia hoje, mas que, na época, pouca gente acreditava: “no futuro, todos terão um computador em casa”.
Ontem, em Campinas, para uma platéia de mais de 1.000 pessoas (muitas das quais pareciam mal saber o tamanho do palestrante), Woz contou sua história. Contou humildemente a história de como ele e Steve Jobs inventaram a Apple e como muitos dos valores iniciais ainda estão preservados.
Quando a palestra terminou, boa parte da audiência saiu rapidamente para assistir ao show de Wilson Sideral (??). Wozniak desceu do palco meio sem graça e ficou num canto do auditório. Levei até ele sua auto-biografia, o livro iWoz, que li logo que foi lançado em 2006.
- O sr. se importa em assinar para mim?
- Nossa! Você tem o meu livro? Claro que assino… em nome de quem? - ele perguntou, sinceramente surpreso em ver seu livro no Brasil. Em seguida, pedi para tirar uma foto, num ataque de tietismo descarado, mesmo sabendo que a sala estava escura demais. Quando ele viu meu iPhone, branco, disse:
- É igual ao meu! - Sacou o dele do bolso e fizemos a foto aí do post.
- Como é que você usa um 3G aqui? - ele perguntou, sabendo que o iPhone 3G ainda não está oficialmente por aqui.
- Uso um SIMAdaptor.
- Ah! Sim! Eu conheço mais ou menos essas coisinhas - se referindo ao chip e, como se estivesse cochichando, continuou - mas sabe como é… hoje em dia eu não ligo muito mais para hardware.
E riu da própria piada. O homem que inventou o computador pessoal não liga mais para hardware.
