22/03/2010   RSS posts: 1539comentários: 3.017 updaters: 559
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Sobre fazer upload antes de fazer download


Ontem à noite eu fiquei mal.
Onde eu estava tinha tanta gente que faz diferença no mundo, para valer e não por slogan, que baixou um daqueles momentos “e o que eu ando fazendo da minha vida”.

Depois fiquei bem. Muito bem.
Porque percebi no palco do Auditório Ibirapuera a concretização do que o Henry Mintzberg, um dos meus gurus de gestão favoritos, costuma dizer: “O Brasil pode não se destacar nas inovações tecnológicas, mas é um celeiro de inovações sociais. E é disso que o planeta vai precisar cada vez mais”.

Ontem foi a entrega do Prêmio Trip Transformadores, inventado em 2007 pela revista Trip. Foram 12 premiados, todos legítimos entregadores do que a frase do título acima promete: todos ajudam as pessoas a fazer upload antes de fazer download. A frase é do Claudio Prado, fundador da ONG Laboratório Brasileiro de Cultura Digital e, lógico, um dos transformadores.

Vou dar uma palinha do que rolou. Na minha frente estava sentada, por exemplo, dona Vanete Almeida, que criou uma ONG multinacional rural, a Rede LAC, de Mulheres Rurais da América Latina e Caribe. É mais ou menos assim: tem mulher vítima, tem mulher pobre vítima e tem mulher pobre rural vítima. Ela cuida dessas últimas!!! E não só no Brasil. Vocês conseguem imaginar o grau de dificuldade da missão? Eu tenho uma parca ideia. Dei um abraço tão forte nela que fiquei com medo de tê-la esmagado.

Com o arquiteto João Filgueiras Lima, o Lelé, meus olhos lacrimejaram. Ele recebeu dois prêmios: o “Transformadores” e o “Vida Transformadora”. Já tinha ouvido falar um tanto do Lelé, mas acho que nunca lhe prestando a atenção devida. Nesse caso, Henry Mintzberg errou: o Hospital Sarah que ele criou (na foto, o de Brasília) é inovação tecnológica TAMBÉM: econômico, de baixo impacto ambiental, tudo de que o século 21 precisa. Os detalhes do que ele faz são geniais, como a cama-maca. Lembrou-me de como design pode ser algo profundamente transformador. E o Lelé definiu que é conservador, não transformador, porque ele conserva as coisas como na natureza. Biomimética pura, Janine Benyus feelings.

Eu me enchi de lágrimas mais ainda com o Dr. Sérgio Petrilli, fundador do Graac, que cuida de crianças e adolescentes com câncer. Como alguns sabem aqui, perdi minha mãe com essa doença este ano – e gastando muito em tratamento. Então, quando soube que ele e sua equipe salvam, em um complexo hospitalar que atende gratuitamente, 70% dos mais de 15 mil pacientes por ano, quase desabei. E ele começou tudo vendendo o carro da família (mulher e dois filhos) para bancar o sonho. O Dr. Sérgio fez o que disse o economista Ladislau Dowbor, outro premiado: inverteu a lógica. Em vez de servir a economia/o establishment, fez com que ela/ele servissem aos seus objetivos.

E a Marika Gidali do Stagium, então? Ela e o Decio já mereciam todos os aplausos por terem se proposto a “dançar em português” (e foi uma delícia rever fotos como a dela dançando com os índios). Mas eles criaram, além disso, o Projeto Joaninha, que forma jovens em oficinas de dança, e o Projeto Escola, que leva 80 mil crianças das escolas públicas da periferia para ver ballet. Genial. E a Marika estava muito emocionada, com a netinha conduzindo-a ao palco, foi lindo.

Vi a Ana Moser, de quem sempre fui fãzaça, falando dos seus centros esportivos para jovens carentes, mais de 80 se não me engano. Massa ela dizendo que não era muito habilidosa no vôlei, mas que contribuiu para as equipes por que passou como podia, com sua força e esforço, e que é isso que está ensinando a moçada a fazer. Massa também foi ela dizer que esse prêmio pesa mais do que as medalhas que já recebeu, a olímpica inclusive, pelo propósito maior de seu trabalho atual. Não foi demagogia, tenho certeza.

Bom, além disso, teve o Dando, da favela de Antares (Angra, RJ), que faz a moçada se formar no ensino médio pela internet e que, uia!, desde os 16 agita isso; hoje tem 25. Mensagem: não tem idade, não tem cultura, não tem limite algum para quem quer transformar. Jornalistas e escritores como Caco Barcellos e Cristovão Tezza, mais próximos da minha realidade, e absolutamente admiráveis, também estavam entre os premiados, junto com o sertanista José Carlos Meirelles, que dobrou a população indígena isolada no Acre e tem o sonho de criar a primeira reserva indígena binacional do mundo (Brasil e Peru). Um homem do mato, ele estava super à vontade naquela urbanidade, muito legal. E, para terminar, foram premiados Joelma e Chimbinha da Banda Calypso, “ídolos” do Chris Anderson pelo modelo de negócio alternativo ao da indústria fonográfica que criaram (que lhes rendeu 12 milhões de CDs vendidos), e que têm uma grife no Pará com um belo trabalho social.

Eu sou de uma geração que cresceu com os ideais do cinemão americano. Então, sim, eu gosto quando o Brasil dá certo e me comovo quando as pessoas superam dificuldades (com esforço e/ou criativamente) e fazem acontecer, contaminando positivamente outras vidas. Ingênua? Boba alegre? You name it. Sei que valeu o convite, Gustavo Giglio! E valeu, Trip, que supre uma deficiência da mídia nas informações desse tipo (ou não dão isso ou, quando o fazem, é de maneira dispersa e “xarope”) e que torna cool uma coisa que podia facilmente ser piegas e babaca, viabilizando o que eu já falei num velho post: gente boa dedicada a causa boa.

Ah! O final, com o Andreas Kisser e o Edgar Scandurra tocando “Maracatu Atômico” (e suas guitarras acompanhadas de um super atabaque) e a parede do fundo do Auditório abrindo e nos deixando ver o Ibirapuera, foi de um bom gosto inenarrável.

(E as categorias aparentemente estranhas em que classifiquei este post, como “competitividade”, não são à toa.)

1 Response to “Sobre fazer upload antes de fazer download”


  1. Gravatar Icon 1 Geraldo Franca

    Parabens Adriana e Parabens Trip e Parabens transformadores.

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