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Cassandras, Kotler, por que mídia não morre e por que jornal não é jornalismo

Cassandra recebeu o dom da profecia e, a partir de certo momento, a maldição de que ninguém acreditaria nas verdades inconvenientes que ela antecipasse. Ela não errava uma, segundo Homero: previu a derrota de Tróia para os gregos, falou do que aconteceria se aquele cavalo presenteado entrasse ali. Bem, nos nossos tempos, as pessoas estão chamando de “cassandras” os profetas do fim dos jornais, que tocam no assunto todos os dias –pelo menos três vezes por dia no meu Twitter. Mas desconfio que elas não conhecem a verdadeira história da Cassandra. Ao contrário do que ocorreu com a profetisa, todo mundo está acreditando nesses profetas. Todo mundo menos… Philip Kotler.

Kotler acabou de nos dar uma entrevista exclusiva que sairá na HSM Management de julho-agosto e antecipo aqui um trecho do que ele falou sobre esse assunto:

Media rarely die. They usually shrink into those niches where they can still perform well. Television did not kill radio or the movies. Computers did not kill television. With regard to the newspaper crisis, I know that it is hard to keep a newspaper going at its present size when ad revenue is moving to the Internet and young people don’t take to newspapers to get their news. The good old days for newspapers are gone. But newspapers can keep their audience by localizing their appeal and going online.

Ouvindo isso, de repente, eu me dei conta de que também há um possível problema de tradução entre a morte anunciada dos jornais pelos americanos e a reprodução desse anúncio pelos brasileiros. Jornal em inglês se chama “newspaper”, embute papel no nome. Já em português, jornal remete a diário, vem de “jour”, “dia” em francês. O que pode morrer é a versão papel (até porque seu formato não é tão confortável e bem-resolvido como o de livros e revistas), mas continuará existindo o jornal diário (só que segundo a segundo, no caso) online. Ou seja, o uso do termo “cassandra” não procede também porque a parte da profecia estará errada (e a Cassandra não errava uma). Ou alguém aí acha que o New York Times Online, a Folha Online e a Economist Online vão desaparecer?

Além disso, mesmo que morressem os jornais (que não morrerão), não morre o jornalismo – outra coisa que tem gerado confusão. Jornal não é jornalismo. Eu já comentei aqui sobre o blog Huffington Post investindo em jornalismo. Agora a Gawker Media (que tem blogs como Gizmodo, Jezebel, Gawker, entre outros) também entrou nessa – conforme seu dono e CEO, Nick Denton, disse à Ad Age, o conteúdo original será remunerado. (Detalhe= Denton foi jornalista do Financial Times.)

Só não cheguei a uma conclusão ainda sobre se essa espiral ascendente de anúncios da morte dos jornais tem segundas, terceiras e quartas intenções ou se é apenas um feeling sincero. Afinal de contas, há uma verba publicitária limitada e muita gente com garfo em punho querendo uma fatia – ou uma migalha. (Um esclarecimento: os jornais vivem uma crise, não há dúvida. Estou questionando é a interpretação e o dimensionamento de seu significado.)

E acabei de entender (talvez) as bravatas contra a internet de caras como o Michael Lynton da Sony Pictures Entertainment e o nosso ministro Hélio Costa (que, na semana que se encerrou, mandou o pessoal se desconectar e ir ver TV). Consciente ou inconscientemente, eles podem estar fazendo isso para oferecer alguma resistência às campanhas potencialmente “assassinas” de tudo que não seja internet. Cabo de guerra. Normal. Até desejável em certas situações.

4 Responses to “Cassandras, Kotler, por que mídia não morre e por que jornal não é jornalismo”


  1. Gravatar Icon 1 Marcelão

    Adriana,

    é como disse o Walter longo : “Mídia Nova não mata midia velha”. Aliás, além de não matar, está querendo compra-la. Veja esse post do blog do Google sobre a intenção do Google em comprar o “The New York Times” em http://googlediscovery.com/2009/05/22/google-pretendia-comprar-o-jornal-the-new-york-times/

    Um abraço.

  2. Gravatar Icon 2 Adriana Salles Gomes

    Verdade, Marcelão. Essa notícia do google, total anticlímax para as pseudocassandras, circulou no twitter essa semana também, esqueci de citar. Mas nem causou furor, achei. Também esqueci de citar essa frase sábia do Walter Longo, tks pelo adendo!

  3. Gravatar Icon 3 Jorge Carvalho

    Pois é Adri, focar menos no meio e mais em quem consome. Seria muita miopia achar que um papel sujo, fedido e desatualizado teria soberania eterna. :-)

  4. Gravatar Icon 4 Daniel D'Amelio

    É verdade, Adriana. Se tem alguma coisa que me incomoda é um ‘cassandra’. Desde que iniciei a trabalhar com web ouça que jornais, revistas e rádios vão acabar. Um meio de comunicação não sobrepõe o outro. Nenhuma nova mídia substitui outra. O que acontece o processo natural de evolução. Ou seja, chegam: novas ferramentas; novos players e novas oportunidades. Quem se adequar às necessidades dos consumidores daquele nicho, aí sim ganhará a ‘briga’ pela preferência.

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