Passado didático, estratégia de dupla aposta

Vocês conseguem imaginar como seria o Brasil hoje se a corte de D. João VI não tivesse se transferido para cá e se Portugal caísse em mãos francesas? E o mundo dos negócios, como seria, se a Xerox tivesse comercializado com sucesso o mouse e a interface gráfica para o usuário e se a Apple abrisse seu sistema operacional para todos? E como seria São Paulo se tivesse aceitado a oferta da Light para construir metrô na década de 1930? Se vocês são daqueles que dizem “não adianta chorar sobre o leite derramado”, agora saibam que esse ditado perdeu parte de sua validade (assim como a gente não pode falar mais que uma discussão inútil é sobre quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha, porque a ciência já determinou que foi o ovo).
Adrian Slywotzky, expert em estratégia, diz que usar uma história artificial para montar passados alternativos ajuda a traçar os futuros possíveis para sua companhia e os mercados. É o que ele chama de “passado didático”. E a partir daí investe-se numa estratégia de dupla aposta. Mas, para isso funcionar, é preciso trabalhar pesado e responder: Quais foram as verdadeiras encruzilhadas da estrada? Quais foram as opções genuínas naquele momento? Quais seriam as respostas mais prováveis dos concorrentes? Que incertezas não resolvidas poderiam ter mudado o cenário? Que indicadores poderiam ter sido acompanhados para revelar o momentum de mudança? Slywotzky faz um alerta: essa ferramenta (aplicável até à vida pessoal aparentemente) pode ser humilhante, até mesmo dolorosa. Na HSM Management de julho-agosto, Adrian Slywotzky descreve essa estratégia, exemplificando didaticamente com a disputa Blockbuster X Netflix pelo mercado de locação de DVDs nos Estados Unidos.

3 Responses to “Passado didático, estratégia de dupla aposta”

  1. Adriana Salles Says:

    Na verdade, temos uma discussão filosófica interessante aqui: o passado irrelevante do Taleb versus o passado útil, porque didático, do Slywotzky.

  2. Rodolfo Araujo Says:

    Adriana,
    Eu não diria que para o Taleb o passado seja irrelevante - pois é com ele que aprendemos. O que ele critica é o nosso excessivo apego ao passado quando decidimos pelo futuro. Planejamos nosso futuro como se as coisas fossem permanecer iguais (sem as rupturas de Clayton Christensen) e afunilamos nosso pensamento limitando-o às nossas experiências passadas.
    Dá uma olhada nos textos que escrevi a respeito (Serendipity; Os cisnes da nossa vida; e Por que precisamos de startups) no site da minha empresa (www.adrenax.com).
    Atenciosamente,
    Rodolfo.

  3. Adriana Salles Says:

    Que bacana você escrever sobre serendipity, Rodolfo. Para quem não sabe, e citando o texto do Rodolfo, serendipity tem sido usado para descrever aquelas descobertas feitas ao acaso, como que sem querer. E eu não conhecia a origem do termo. Citando novamente o Rodolfo: “A origem do termo remonta ao séc. 18 quando Horace Walpole descreveu, em carta a um amigo, um conto de fadas persa sobre as aventuras de três príncipes que faziam descobertas ao acaso enquanto viajavam pela região de Serendip (antigo Ceilão, atual Sri Lanka)”. Bonito. E concordo inteiramente sobre o que vc disse do Taleb. É que ele usa o termo “irrelevante” para provocar reações e reflexões e eu, mui modestamente, busquei fazer o mesmo.

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