Hamlet de Wagner Moura: lição de inovação

wm.jpgFui assistir a “Hamlet” no fim de semana que passou – essa versão com o Wagner Moura dirigida pelo Aderbal Freire Filho que foi bastante incensada pela mídia de início e depois (ao menos, me pareceu), um pouco silenciada. Toda vez que vou ver Shakespeare, vou com um pouco de medo; já tive experiências extasiantes com peças dele mas algumas terríveis e incompreensíveis também. E, toda vez, saio ligeiramente triste; não sei se é porque gosto de escrever, mas fico com a sensação de que não há mais originalidade possível depois desse homem.

Bom, isso era antes. Antes de ver essa montagem do Aderbal Freire. Caros, esse Hamlet é  o que há em matéria de inovação. O personagem construído pelo Wagner Moura conseguiu não ter NADA a ver com o Hamlet do Laurence Olivier no cinema (o mais famoso), que é o indeciso-angustiado, e com as outras interpretações clássicas que, mesmo que não conheçamos, já criaram todas as expectativas em nós. Wagner-Hamlet é de um sarcasmo, um deboche, um cinismo, uma malandragem inacreditáveis.  A ousadia da interpretação (dele e dos outros atores, também excelentes) é gigantesca. A imprensa destacou os tênis e moletons século 21 dos atores, mas isso é detalhe (acho eu). A interpretação é que é do século 21, bem antes do vestuário ou do cenário. (Curioso é que esse nervosismo na interpretação tem uma meia dúzia na platéia que não entende e fica rindo, achando que é comédia; mas, na verdade, até o riso de quem não entendeu parece sob medida para mostrar o século 21, porque ilustra o texto, que fala em certo momento que os que não entendem as coisas ficam rindo).  

E por que falar do Hamlet do Wagner Moura num blog dedicado a gestão? Primeiro, é claro, para sugerir que todos vão assistir. É uma experiência e tanto. Depois, porque, como adiantei, foi a primeira vez que eu não saí de uma peça de Shakespeare triste e desmotivada com a idéia da originalidade. Claro, o bardo enxergava longe mesmo e disse muito do que havia para se dizer. Mas essa montagem mostrou que dá para inventar LOUCAMENTE mesmo sem mexer em uma vírgula sequer do que ele escreveu. Esse Hamlet é “a inovação” em si, essa coisa às vezes tão abstrata de que tanto falamos. Nesta era pós-moderna, em que começamos a aprender em saltos, mais que linearmente, “sentir” a inovação tão de perto pode ser uma das melhores maneiras de alimentá-la. Acho eu – e o resto é silêncio. (Cliquem aqui para ler alguns trechos da peça.)

3 Responses to “Hamlet de Wagner Moura: lição de inovação”

  1. Jorge Carvalho Says:

    To louco pra ver! Fica até quando?

  2. Adriana Salles Gomes Says:

    Não sei, mas, como está lotando, deve ficar um bom tempo ainda. Está no Teatro Faap - dá para comprar com cartão de crédito pelo telefone e pegar o ingresso na hora, super confortável

  3. Claudinei L. Pinheiro Says:

    Pronto! Se eu já queria assistir, agora com essa “magnifica” descrição de contexto, estou mais curioso ainda…

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