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Casas Bahia, na favela e no Financial Times

baianinho.pngHoje o jornal inglês “Financial Times” traz reportagem sobre a abertura de uma loja da Casas Bahia na favela de Paraisópolis, em São Paulo, no dia 5 último. A rede investiu R$ 2 milhões nisso e já programou mais 30 lojas novas para 2009, inclusive mais algumas em favelas.

O autor do artigo, Jonathan Wheatley, começa escrevendo que, ao som de Exaltasamba, “centenas de pessoas na frente da loja dançam, pulam e abanam os braços como se não houvesse amanhã”. Aí fiquei pensando  no que essa loja vai fazer pela auto-estima de seus consumidores e em como o C.K. Prahalad tem sua razão ao defender a possibilidade de inclusão social (e distribuição de renda) pelo consumo.

Já demos na HSM Management Update um estudo de inspiração etnográfica, feito por Carla Barros e Everardo Rocha, da ESPM-RJ, que mostrava esse potencial com declarações de consumidoras, todas empregadas domésticas, sobre a Casas Bahia. É impressionante o impacto da rede varejista em seu target – acompanhem:

  • As Casas Bahia pegam você na porta, eles se dedicam mesmo, abrem o coração, pra laçar você ali na hora. Agora na outra loja [omiti o nome, vou chamá-la aqui de "outra loja"] você é que tem que ir lá – êi, êi [como se estivesse tendo que chamar o vendedor]. Acho que as Casas Bahia tem mais dedicação à pessoa. (Lourdes)
  • As Casas Bahia são como uma mãe, facilita pra gente. É rápido tirar [comprar] as coisas lá. (Andréia)
  • Lá [Casas Bahia] eles facilita demais pra gente, só falta dar as coisas. Em termos de tudo, de dividir, de pagamento. Agora, há pouco tempo mesmo, eu atrasei as prestações da minha geladeira, eles fizeram um acordo excelente prá mim, uma maravilha, eles próprios fizeram uma proposta legal pra caramba. Sempre compro lá. (Janaína)
  • Da outra loja, não gosto, acho que é muito cheio de coisa; pras pessoas comprar, tem que comprovar a renda, tem que fazer isso, tem que fazer aquilo; nas Casas Bahia já não tem esse problema, você não precisa comprovar renda, é só você dar um telefone pra contato, que você consegue. (Rita)
  • Tenho crediário na outra loja e nas Casas Bahia. Acho as Casas Bahia mais barata e menos complicada, pra você comprar, fazer um crediário nas Casas Bahia a primeira vez é mais fácil. Sou sempre muito bem atendida lá; na verdade, quando eu fui comprar esse computador da minha filha eu achei que não ia conseguir porque eu tava pagando as penúltimas prestações da minha televisão e aí eles me atenderam muito bem, nada a ver com a prestação que eu já tinha, fizeram outra. [...] Uma vez eu até fiquei meio chateada com eles [da outra loja], eu até já estava trabalhando aqui, e aí eu fui fazer o crediário lá com eles, aí eles disseram que carteira assinada em casa de família não é comprovante de renda. Nas Casas Bahia mesmo que você não esteja trabalhando de carteira assinada, eles fazem. Eles têm até um lance que é o “primeiro crediário”, que você pode comprar até R$ 500 sem comprovar renda nenhuma. (Hilda)

1 Response to “Casas Bahia, na favela e no Financial Times”


  1. Gravatar Icon 1 Adriana Salles Gomes

    Houve uma discussão importante sobre a iniciativa da Casas Bahia no blog-irmão Update or Die e achei que devia trazê-la para cá. Os comentários são do updater Mentor Muniz Neto:

    “…Inclusão social via consumo foi um dos alicerces da recente bolha imobiliária americana….A idéia de que existe uma parcela gigantesca da população, a tal base da pirâmide de consumo, que pode se transformar em força motriz da economia se for estimulada a consumir e que, como benefício adicional, pode ainda melhorar sua qualidade de vida, vem se provando equivocada, infelizmente….[porque] alguém precisa servir como fiador [desse processo]. E nessa hora, como os volumes [de $ requeridos] são gigantescos, o sistema financeiro - em seu modelo atual - torna-se frágil demais….Assim, o modelo das Casas Bahia funciona e é eficiente, mas não se sustenta para crescer ao ponto de representar um câmbio social….
    É fundamental que exista, por trás [desse tipo de iniciativa], o suporte de instituições financeiras sólidas que são, em última análise, os que assumem os riscos…A equação, nem a do Silvio [Santos e o carnê do Baú], nem a das Casas Bahia, em construção, nem a do Magazine Luiza em ascensão são (e na minha opinião, serão) capazes de ir além do que um grande conglomerado sozinho é capaz: arrecadar clientes e lucrar.
    A ambição da inclusão social, na minha opinião, depende de muito mais do que isso. Depende do governo com incentivos, depende das grandes instituições financeiras e, principalmente, depende de uma mudança séria na cultura, sim, mas da cultura de nosso empresariado.
    No caso das Casas Bahia, continuo achando que é apenas uma estratégia de marketing digna de nota e mérito, sem dúvida, mas com pouca ou nenhuma conseqüência para a grande ordem das coisas.”

    Não concordo com o Neto, mas sei que seus argumentos são respeitáveis. Vale a pena todos nós pensarmos nisso.

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