“A maioria de nós aprendeu a ter uma atitude bastante passiva em relação aos escritos: começamos lá no alto à esquerda e seguimos até lá embaixo, como numa descida para a praia pela Imigrantes.” A frase é um quote deste post sobre como ler 2.0, mas acho que funciona como metáfora também para uma transformação maior, que talvez seja ingrediente de uns 50% dos artigos que publicamos na revista HSM Management: a passagem da era industrial para uma nova “era pós-industrial” (nome mais seguro), ou “era da sabedoria” (meu nome preferido, pela razão egoísta de eu querer poder viver em tempos sábios). A era industrial se baseou em processos de produção e de consumo (de qualquer produto, serviço ou idéia) que eram lineares, padronizados e lean (enxutos – palavra de ordem desde que a Toyota virou benchmark geral) – como a descida para a praia pela Imigrantes, com todos os seus túneis endireitadores do trajeto e garantidores de eficiência. Já esta era da sabedoria, ao que tudo indica, vai retomar a opção de chegar à praia (metáfora de objetivo) pelas curvas da Estrada de Santos, usando processos de produção e de consumo que sejam em círculos, mais “on demand” e, até ouso dizer, mais rococós. Alguns sinais:
- As primeiras experiências da economia pós-industrial, na esteira da urgência da mudança climática, registradas por Peter Senge na HSM Management de novembro-dezembro – como a experiência da região norte da Suécia, que se propôs ter a “primeira economia livre de petróleo do mundo”, e as de algumas empresas que vêm promovendo inovações de base que modificam os negócios e a sociedade. Assinantes da revista podem baixar este artigo aqui.
- A nova regra “first who, then what” (primeiro quem, depois o quê), assim verbalizada por Jim Collins, inclusive na ExpoManagement recém-encerrada, mas que vem sendo dita com palavras variadas por muitos pensadores da gestão. Isso inverte e subverte todos os paradigmas da gestão até agora, que sempre focaram em “o quê”, fosse o produto ou serviço, fosse o processo. A economia fica mais baseada nas pessoas também, em vez de apoiar-se em infra-estrutura ou matérias-primas, e, assim, re-humaniza-se (ou humaniza-se pela primeira vez…).
- O fenômeno da migração do conceito de pós-modernidade das artes para os negócios, com sua interdisciplinaridade absurda, com a supremacia das interrupções sobre o foco e com a ânsia por inovação sistemática. É o que está chacoalhando todos os paradigmas atuais, preparando o terreno para que novos paradigmas se instalem.
- O reconhecimento científico da irracionalidade humana, proporcionado por experimentos como os de Dan Ariely no MIT, como escrevi neste post no blog-irmão Update or Die. É só porque já estamos na aurora da re-humanização que conseguimos reconhecer isso num mundo ainda marcado pela eficiência.
Então, se vocês concordaram que esses bullets contêm sinais da mudança de era, o que vale a pena levar para casa? São vários os takeaways, mas, neste mundo mais voltado para as pessoas, consciente da irracionalidade e onde o resíduo de um precisa ser a matéria-prima do outro, arrisco-me a destacar um só: a volta do longo prazo. Se hoje a gente desce a rodovia dos Imigrantes em 40 minutos, acho que, o asfalto estando razoavelmente OK, deve levar umas três horas para descer pela Estrada Velha de Santos. E, o upside, a viagem é muito mais bonita. Agora é a hora, portanto, de vocês conhecerem melhor organizações como a Long Now Foundation, e seu relógio do ano 10.000 (protótipo na foto) – ou o computador mais lento do mundo, como o Brian Eno e seus colegas o chamam.
UPDATE: Vale a pena prestar atenção aos movimentos que começam com a palavra SLOW, como SLOW food e SLOW blogging, que mereceu um artigo dias atrás no New York Times e já foi citado aqui pelo Mário Castelar. Tem fumaça, tem fogo. Tudo a ver com a ânsia pelo longo prazo.
