15/03/2010   RSS posts: 1526comentários: 2.988 updaters: 558
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A Sociedade do Espetáculo

Hoje foi um dia histórico. Toda a indústria americana do entretenimento e da informação realizando a cobertura de um evento via internet sem precedentes.Gigantes da televisão se juntaram às novas mídias online e redes sociais e levaram ao mundo um grande espetáculo.

Foi emocionante assistir Stevie Wonder tocando piano enquanto a câmera fazia uma panorâmica do caixão de Michael Jackson. Ver todos aqueles artistas, juntos no palco, cantando em coro, enquanto um deles fazia a voz principal e passava suavemente suas mãos pelas flores que cobriam o astro pop. Que fotografia, que cena, um verdadeiro show!

A procura por ingressos foi tão grande, que existiram ofertas por até US$ 20 mil na internet. Também, não se pode perder este grande espetáculo. Os organizadores e a família do cantor cuidaram de tudo. Movimentaram a indústria fonográfica, convidaram diversos astros, comercializaram milhares de entradas e venderam as licenças de transmissão para que todo o mundo assistisse e todos os fãs pudessem se despedir do astro pop. Poderiam até ter organizado uma turnê fúnebre mundial. Iriam quebrar todos os recordes de bilheteria.

Essa é a sociedade do espetáculo. Não existem mais limites entre o show e a tragédia. Tudo é entretenimento a ser consumido por uma sociedade plugada e faminta por espetáculos como este. Nela, o critério de veracidade é o fato de ter sido noticiado e em qual volume. Ok, agora tenho certeza que Michael Jackson morreu!

O pensador francês Guy Debord (1931-1994) criador do tema-título deste post defende em sua literatura “O Espetáculo” como a multiplicação de ícones e imagens através dos meios de comunicação de massa, de tudo aquilo que falta à vida real do homem comum: celebridades, atores, políticos, personalidades, mensagens publicitárias - tudo transmite uma sensação de permanente aventura, felicidade, grandiosidade e ousadia. É a forma mais elaborada de uma sociedade que desenvolveu ao extremo o fetichismo da mercadoria. A sociedade da vida moderna prefere a imagem e a representação ao realismo concreto e natural, a aparência ao ser, a ilusão à realidade, a imobilidade à atividade de pensar e reagir.

E ele tinha razão, claro. A morte também é um produto de consumo. Como a última guerra, o terrorismo, as pandemias. O que importa as pessoas reais que fazem da tragédia o espetáculo? Destino infeliz o deles. “Garçom traz mais uma cerveja!”

Ninguém nunca respeitou a figura real de Michael Jackson. Ela nunca existiu. Desde a infância teve a vida invadida e transformada num dos maiores produtos do show bizz, seu enterro não poderia ser diferente.

Há muito tempo tudo é movimentado pela grande indústria cultural por um único motivo: porque nós consumimos.

Voltamos a uma situação primitiva onde nos “alimentamos” de tudo, sem critério. Onde o conhecimento deu lugar à informação imediata e vazia. Onde o respeito à privacidade e dignidade alheia se transformou em conteúdo jornalístico e do entretenimento. Que orgulho de nós mesmos!

Este post não tem imagens ou ilustrações vendedoras, não tem tags, não tem links nem categoria. É apenas um simples registro de onde estamos e para onde estamos indo.

7 Responses to “A Sociedade do Espetáculo”


  1. Gravatar Icon 1 Paulo Dziobczenski

    Leandro, meus parabéns pelo post, tomei a liberdade de citá-lo no meu twitter.

    Realmente é lamentável ver que um momento tão íntimo à família acabou se tornado um evento televisionado e badalado da maneira que ocorreu. Ok, os fãs tem direito da despedida do ídolo, mas tudo tem limite.

    Me admiram as pessoas que interromperam suas atividades corriqueiras e acompanharam pela TV.

  2. Gravatar Icon 2 Bruno Nagumo

    parabéns pela lucidez Leandro, tomei a liberdade de divulgar em http://spreadthings.wordpress.com/
    um abraço!

  3. Gravatar Icon 3 Andrezza Carvalho

    Leandro compartilho de sua opinião uma vez que sou formada em publicidade e estudei muito isso: a nossa “vida” é um verdadeiro palco de ações justificadas para o modelo do capitalismo. Grande exemplo disso é a febre de BigBrothers da vida.

    Assim como os demais tomei a liberdade de replicá-lo em meu Blog.

    Parabéns!

  4. Gravatar Icon 4 Leandro Ogalha

    Olá Andrezza, Bruno e Paulo!
    Este foi um post-desabafo. Não tive a intenção de ir contra “o sistema”, contra os canais de comunicação e muito menos filosofar. Tinha um sentimento após assitir via web aquele espetáculo e escrevi tudo o que pensava no momento.

    Agradeço os comentários e os reply nos blogs. Só não se esqueçam de colocar os créditos/link do blog HSM. rs

    Grande abraço e até o próximo post!

  5. Gravatar Icon 5 Alexandra

    Leandro, muito feliz sua colocação.

    De minha parte, quero acrescentar que a sociedade do espetáculo é a sociedade da “imagem acima de tudo” e que isso, antes de ser um fenômeno social ou midiático, é algo que ocorre em nossas entranhas. Certo zelo pela imagem pode ser até necessário e saudável, mas é frequente, bem frequente, nos depararmos com alguém que gosta mais de sua imagem do que de sua essência, de seu verdadeiro eu. E faz tudo para defender essa imagem, à custa de sua saúde, de sua família e da sua própria realização. Infelizmente, esse amante-da-própria imagem, Narciso, é alguém que tende a realizar coisas (consumir, assumir cargos, dar entrevistas) que vão ao encontro do ideal que nossa sociedade “espetacular” apregoa. Então, esse narcisista é aprovado, aplaudido e, por isso mesmo, afunda-se mais ainda na areia movediça. E alimenta a patologia da sociedade também.

    Resultado: afundamos todos juntos, pois uma sociedade que privilegia a imagem não privilegia a vida. Sofre o planeta.

    Obrigada por me estimular a refletir, Leandro. Tomara que mais gente faça isso.

    Esqueci de falar do Michael Jackson, coitado. Ah, deixe ele pra lá… Nós o elegemos como símbolo de uma cultura, ou de uma época, não foi? A do espetáculo, provavelmente. Que venham novos deuses! Só não nos esqueçamos que os deuses são imortais - pelo menos por um bom tempo…

  6. Gravatar Icon 6 Michelle Senna

    Excelente Post!
    Precisamos falar sobre o Showrnalismo.
    Sobre as capas estampadas de notícias sangrentas, bundas e peitos.
    Estímulos para a população que está cansada do comum e do que a faz “pensar”.
    É mais fácil vender com ícones sexuais, violentos, fúnebres etc.

  1. 1 Algumas coisas possuem preço, outras possuem valor « Sem Rumo

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