“No dia 1º de janeiro de 2031, os jornais de Bangladesh publicarão, na primeira página, um anúncio oferecendo uma recompensa de US$ 1 milhão para quem achar uma pessoa pobre no país. E ninguém conseguirá ganhar esse dinheiro. Esse é o meu sonho.” Foi assim que Muhammad Yunus, ganhador do Prêmio Nobel da Paz em 2006 por seu Grameen Bank e por todo o projeto de microcrédito sem exigência de garantias, encerrou sua emocionante palestra no palco principal da ExpoManagement, o megaevento de três dias com mais de 4.000 executivos e empresários que a HSM está promovendo em São Paulo. E todos esses gestores, que vivem de perseguir lucros, o aplaudiram de pé.
Ele disse isso de outra maneira também. Disse que o objetivo que o mundo deve perseguir é que a pobreza vire peça de museu em 2050, como os dinossauros viraram. E que as crianças tenham de visitar um museu para saber o que é isso. E todos esses gestores, que vivem de perseguir lucros, o aplaudiram de pé.
Disse ainda que os seres humanos não são máquinas de fazer dinheiro. Que o lado “fazer dinheiro” é nosso lado egoísta, contemplado nas empresas com fins lucrativos, e é apenas um dos dois lados que nós temos. O outro é o lado altruísta. Disse que precisamos inventar um tipo de empresa para contemplar também esse lado: a empresa social, feita para servir os outros, mas sistematizada como uma empresa. Onde os investidores recuperem o dinheiro investido, mas não lucrem além disso. Onde o lucro seja reinvestido no negócio social. E todos esses gestores, que vivem de perseguir lucros, o aplaudiram de pé.
Ele contou sobre a empresa social que montou numa parceria do Grameen Bank com a Danone na França. Eles produzem iogurtes com os nutrientes complementares (ferro, zinco etc.) para fazer com que uma criança subnutrida supere todas as suas carências em dez meses se tomar apenas dois potes por semana. A um preço baratíssimo. E todos esses gestores, que vivem de perseguir lucros, o aplaudiram de pé.
Ele convidou cada um da platéia a desenhar uma empresa social. Um protótipo. E a disponibilizá-lo na internet. Pode ser um projeto para tirar cinco desempregados do desemprego. Ou criar uma bolsa de valores social. E todos esses gestores, que vivem de perseguir lucros, o aplaudiram de pé.
Ele contou como uma das empresas do Grupo Grameen (nasceu como banco, virou um grupo de várias empresas), de telefonia celular, está buscando transformar as mulheres dos vilarejos de Bangladesh em “internet ladies”, prestadoras de serviços de internet aos cidadãos. Elas eram ”phone ladies”, prestavam serviços telefônicos para os vizinhos, até que todos os habitantes de Bangladesh, por conta desse sistema, conseguiram ter seu próprio telefone. Assim vai se democratizando o acesso à informação, além do acesso ao crédito. E todos esses gestores, que vivem de perseguir lucros, o aplaudiram de pé.
Yunus, um economista formado nos Estados Unidos que dava aulas na universidade de Bangladesh, começou a se envolver com tudo isso há cerca de30 anos quando conheceu, num vilarejo, 42 pessoas desesperadas e passando fome porque deviam, juntas, US$ 27 a agiotas. Pagou do bolso dele esse valor e a felicidade que provocou o levou a querer fazer muito mais pelas pessoas. Ele concluiu que é perfeitamente possível eliminar a pobreza do mundo. Ela tem se reduzido 2% ao ano em Bangladesh, o que significa que estará pela metade em 2015 e poderá chegar a zero em 2030. Resultados palpáveis e sem depender de governo para nada (”porque quando política se mistura com dinheiro, a transparência fica comprometida”). Tudo iniciativa privada, de pessoas acionando seu lado altruísta tanto quanto seu lado egoísta. Eu saí querendo acreditar que é possível. A platéia de gestores de empresas aqui também está querendo apostar nisso. E vocês?
Update: dêem uma olhada nessa empresa Dois e Meio, que se propõe ajudar a construir empresas sociais no Brasil.